ReliPress | RELIGIOUS LIFE PRESS
Maio 2015

Uma VRC alegre em meio às novas pobrezas!

Irmã Annette Havenne, Irmãs de Santa Maria[1]

As perspectivas a respeito deste tema de reflexão já começam com o título:

Uma vida consagrada alegre em meio às novas pobrezas.

Uma vida consagrada alegre em meio às novas pobrezas?

Uma vida consagrada alegre em meio às novas pobrezas!

Afirmação tranquila, questionamento honesto e provocador, desafio de uma proposta estranha, mas possível embora contracorrente? Optei pela terceira proposta e fui colocando um ponto de exclamação, ou de admiração!

Nesse ponto de exclamação vai o fruto de experiências pessoais – sempre limitadas – mas também da escuta e do diálogo com um bom número de religiosas e religiosos, nas várias etapas da sua vida, caminhada vocacional e missão.

São estas experiências que quero retomar, é esta alegria, ou ausência de alegria na VRC[2], que desejo compreender, sem me deter na análise do que vem a ser as novas pobrezas, o que nos levaria a outra perspectiva interessante, embora além das minhas competências e dos limites deste artigo.

Ao limiar da nossa reflexão, há, portanto, a provocação dirigida à VRC pelo Papa Francisco: “Queria dizer-vos uma palavra e a palavra é alegria. Onde estão os consagrados, os seminaristas, as religiosas e religiosos, os jovens, há sempre alegria, há sempre júbilo.”[3] Será? Vamos nos deixar questionar?

  1. Alegria, que alegria?

Em boa metodologia, deveríamos aqui afinar o conceito de alegria: sua semântica, suas raízes bíblicas, suas conotações na “Evangelii Gaudium”[4], mas, como outros artigos desta revista já cuidaram ou ainda vão cuidar disso, vamos simplesmente indicá-los com referência. Seguirei outra pista, partindo do nosso chão, o Nordeste do Brasil. Sem muita pretensão, desejo partilhar água do nosso próprio poço.

  1. Momentos de alegria… somente?

Meses atrás, eu me encontrei para quatro dias de curso com um grupo de jovens consagradas e consagrados, em preparação para o compromisso definitivo, e o tema era seguimento de Jesus. A queima roupa, perguntei a eles:

– Vocês são felizes na VRC? Perplexidade nos rostos, silêncio, e finalmente uma resposta:

– Experimentamos momentos de felicidade! Uma resposta bem pós-moderna!

– Podem lembrar-se de alguns momentos de grande alegria na sua caminhada? Houve um tempo de reflexão em grupos e um plenário.

As respostas indicam polos fortes que partilho a seguir, conservando as expressões usadas por elas e eles:

  • A missão: ir aos mais distantes e esquecidos, ver seus rostos transfigurados no final dos encontros, sentir o quanto o povo confia em nós, visitar as casas, escutar, perder tempo com pessoas humildes, ser presença que faz diferença, evangelizar!
  • A fraternidade: a comunidade, a refeição, a oração em comum, a partilha sincera, as relações da comunidade com o povo, a CRB, as experiências de intercongregacionalidade, a alegria dos coirmãos quando passei no vestibular, os encontros de formação. Mesmo em meio a dificuldades, conflitos, crises pessoais, a doação em prol do mesmo objetivo, o ânimo diante das adversidades. As festas dentro da caminhada vocacional: festa de envio da paróquia de origem para a congregação, festa de profissão, encontros da minha família com a congregação.
  • A espiritualidade: a experiência de orar, permanecer com Jesus, acolher e viver sua Palavra, a Eucaristia, o sentido e o desejo de doar a vida, a afinidade com o carisma.

Como o grupo estava trabalhando dentro da dinâmica do núcleo identitário da VRC – mística, missão, comunidade – fomos dar uma olhada nestas três componentes e logo vi brilhar os olhos destas/es jovens e veio outra alegria mais genuína: nossas alegrias tem tudo a ver com a identidade da VRC, elas confirmam nossa opção!

Depois seus rostos ficaram sérios e surgiram questionamentos:

  • Estas são as respostas que se esperam de bons religiosos e religiosas, será que fomos totalmente transparentes?
  • Estas alegrias têm fonte mística ou são sinais de atuais realizações humanas?
  • Elas bastam para assegurar nossa felicidade ao longo da vida?
  • E se a gente for desencantar no caminho, o que nos resta?
  • E os sofrimentos, como vamos integrar e ressignificar?

Convidados a um momento de oração pessoal diante destes questionamentos, voltaram com intuições fundantes:

  • Se o foco não for Jesus, a opção decisiva por ele não vai!
  • É a paixão por Jesus e pelo povo que perpassa e da sentido! Sem intimidade com Ele não dura!
  • A alegria vem de Deus e precisamos estar em atitude de acolhida!
  • Tem tudo a ver com a vivência dos valores do reino, das bem-aventuranças. Às vezes é uma alegria de cabeça para baixo, contracorrente!

Eu também senti alegria profunda, foi um momento mágico, como se a gente vislumbrasse por um instante quanto a VRC pode ser bela, boa e verdadeira. Quanto, vivida na sua autenticidade, ela vale a pena!

Retomando estes elementos, é interessante lembrar de Vitor Frankl, dos valores que segundo a logoterapia dão sentido e alegria à vida humana: valores de criação, valores existenciais, valores de atitudes. Lembrar também de uma das suas alertas, no prefácio da edição de 1984, à sua obra “Em Busca de Sentido”: “Não procurem o sucesso. Quanto mais o procurarem e o transformarem num alvo, mais vocês vão errar. Porque o sucesso, como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só tem lugar como efeito colateral de uma dedicação pessoal a uma causa maior que a pessoa, ou como subproduto da entrega pessoal a outro ser.”[5]

  1. Ladrões de alegria.

Voltemos aos meus jovens interlocutores, preparando-se para votos definitivos na cultura do descartável! Ainda perguntei-lhes: o que nos rouba a alegria, o que rouba a alegria da VC?

E recebi uma enxurrada de respostas, demostrando experiência desta realidade! De novo, transcrevo respeitando as expressões usadas por elas e eles:

  • Coisas do mundo lá fora que moram cá dentro da gente: consumismo, individualismo, apegos, desconfiança, desejo de ser o centro, egoísmo, desânimo, tédio.
  • Atitudes que nos fazem sofrer, mas que nós também temos tentação de lançar mão nas relações: autoritarismo, sede e mau uso do poder, cobranças, mentiras e fofocas, interpretações mesquinhas, falta de compromisso, de responsabilidade, fechamento, chantagem, arrogância.
  • Dispersão e distanciamento da nossa identidade específica.
  • Falta de sentido, de esperança, de fé, de oração, de olhar contemplativo, rejeição da cruz, do sacrifício, falta de qualificar os votos como um caminho positivo de libertação para amar mais.
  • Medo do novo, saudosismo, perfeccionismo, idealismo, expectativas desmedidas…
  • Crises mal gerenciadas e vividas na solidão, sem partilhar nem buscar ajuda.
  • Tentações, inseguranças quanto ao futuro.

Cada um de nós pode continuar a lista com seus pequenos ladrões de estimação!

  1. Indo às fontes da alegria autêntica…

Onde então iremos encontrar as fontes de água pura, de água “fina”, como se diz no sertão nordestino? Ou melhor, como voltar para estas fontes das quais já bebemos? Pois, caso contrário, nós não iríamos sentir saudade delas!

Um primeiro passo seria parar e silenciar para rever os caminhos que trilhamos em busca da alegria-felicidade-realização.

O mundo da comunicação virtual está cheio de receitas para conseguir o elixir da alegria! Até dá a impressão de que estamos passando rapidamente da geração do paracetamol para a geração da pílula da alegria! (Sem desfazer destes remédios e do seu uso criterioso!)

A título de exemplo seguem duas informações colhidas ultimamente na internet:

Cientistas britânicos descobrem a equação matemática da felicidade!

De acordo com a pesquisa, onde voluntários realizaram tarefas com recompensas monetárias, a sensação de felicidade acontece quando conseguimos desempenho melhor do que o esperado diante de riscos-recompensas! Eu lhes poupo da equação matemática… e peço permissão para continuar a busca por outras águas!

Dez profissões que garantem um bom salário sem muita dor de cabeça!

Na lista, e não é grande surpresa, aparecem tipos de trabalhos onde as pessoas se envolvem com máquinas, sozinhas, de preferência em casa ou num laboratório, sem precisar lidar com relações humanas, sempre estressantes e espinhosas! E minha pergunta volta, insistente: será só isso? Ou tem algo mais?

Não podemos negar que por trás de manchetes sensacionais há leis psicológicas relevantes na conquista da felicidade, como a importância de ter um objetivo e motivação clara para alcançá-lo. Ou a necessidade de enfrentar riscos na realização dos seus projetos. E ainda o desgaste que ameaça os profissionais do cuidado para com outros seres humanos, ou até o simples peso humano de conviver com pessoas complicadas, “a começar por mim”!

Mas precisamos cavar mais para encontrar o lençol freático de onde jorra a alegria que vem de dentro, aquela que os gregos chamavam de entusiasmo: presença, fogo divino dentro da gente! Um pouco ou muito diferente da sensação de prazer, satisfação ou euforia corriqueiras e tão badaladas. Muito diferente da sensação de derrota, pessimismo e morte que às vezes assola nossas almas e reuniões!

Vejam o palpite de Jeremias:

“Vocês me abandonaram a mim, a fonte de água viva, e cavaram para si cisternas rachadas que não seguram água!” Jr 2,13

Embora tenhamos no sertão e na região do semiárido a mística da cisterna, menina dos olhos da casa rural, lembremos que ela é alimentada pela água de chuva que precisamos aprender a recolher, guardar e preservar da poluição!

Vida Religiosa Consagrada, você está centrada na sua identidade? Você vigia para não deixar apagar a chama do primeiro amor? Você cultiva a experiência de Deus na monotonia do cotidiano “tão sem graça”, onde se encontra porém o segredo de uma formação que se quer permanente? Você se abre por dentro para receber as primeiras chuvas que acordam as sementes adormecidas? Você experimenta a alegria de despertar outros?

  1. Por que então tanta tristeza?

Sim, porque tanta tristeza, falta de vigor ou de vibração? (não falo de celular!). Se a plantinha da VRC continua autêntica, saudável, pode ser que o problema esteja no bioma onde ela tenta sobreviver e dar novos brotos?

Más línguas dizem que VRC nasce profética e morre institucionalizada… Longe de mim a atitude fácil demais de acusar a instituição de todos os males que nos perseguem. Mas é preciso reconhecer que às vezes ainda carregamos pesos inúteis, contraprodutivos, que nos afastam da leveza e da alegria evangélica. Ainda nos arrastamos muitas vezes pela lógica do dever e das energias amarradas quando poderíamos recuperar energias autônomas para escolhermos ser simplesmente o que somos e fazer o que somos boas ou bons para fazer, como vida consagrada, tranquilamente. Sim, a leveza institucional tão almejada começa dentro de cada um de nós, quando decidimos migrar do nosso pequeno eu “metido em encrencas” para o lugar do coração, das relações, do amor de cuidado! Somente pessoas leves podem devolver leveza a velhas instituições solenes ou rígidas demais! Como o dizia uma jovem religiosa no final de um retiro, algumas semanas atrás:

“Entre o meu chamado à vida consagrada e a instituição, eu escolho… aprender a integrar os dois, porque agora quero ser realista sem perder meu primeiro amor, nem a minha primeira alegria !”

  1. Em que ecossistema nascemos?

Mas, quando falo em bioma, penso muito além das grades e mazelas institucionais, penso no chão onde a VRC, e especialmente a VC apostólica nasceu. E de novo me inquieta a frase lapidar de Jon Sobrino, numa entrevista a IHU[6]: “Absoluto é Deus, co-absoluto são os pobres.”

Vida Religiosa Consagrada, você ainda esta conectada com a sua matriz, os empobrecidos? Você se conecta com o “heartbook”[7] dos gritos da humanidade que foram seu berço, ou esta apenas se produzindo no “face”? Você se deixa questionar pelas novas pobrezas?

Cada vez que no decorrer da história a VRC se afastou dos empobrecidos, ela se deu mal. Cada vez que ela volta a se solidarizar com os menores e com as periferias e fronteiras existenciais, seu carisma ressurge. E quando digo ir e se solidarizar não estou falando apenas de fazer, mas principalmente da conversão do coração e também do estilo de vida! Há uma “simplicidade voluntária” que nos faz redescobrir nosso centro vital, que pinga um colírio no nosso olhar embaçado e que traz a irmã alegria de volta para nossas comunidades!

  1. E se a gente relesse as parábolas do Reino?

Sem dúvida, trata-se de um lento processo de transformação e não de uma mudança mágica. As parábolas do Reino estão lá para nos ajudar a entender como ele cresce silenciosamente “por si mesmo” Mc 4, 28.

Penso que há uma relação profunda entre estas parábolas e a VRC, que elas são oferecidas como inspiração fundante aos simples e pobres de coração com quem queremos nos identificar, redescobrindo a esperança e alegria de viver e de evangelizar. Cavar as parábolas do Reino vale dizer buscar sinais de vida e esperança, pois aqui temos imagens de transformação que primam pela vitalidade! Elas são uma mina para o cotidiano da missão.

Primeiro a categoria na qual elas se movem. Não a do fracasso e do sucesso sempre relativos, mas a do dar frutos! O que imediatamente convida a uma mudança de avaliação e um redimensionamento das frustrações! Vamos tentar uma leitura orante nesta perspectiva, em busca da alegria que tem cheiro diferente e inesperado, cheiro do Reino, cheiro real!

  1. Uma leitura orante.

Parábola do tesouro. Mt 13,44

“Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra o campo.” Alegria que vem do arriscar, despojar-se de tudo pelo valor maior, o essencial.

Parábola do ovelha perdida. Lc 15,6

“Alegrai-vos comigo, encontrei a ovelha perdida!”Alegria que vem do amor de cuidado, ameaçado, preocupado com o outro, mas que vale a pena.

Parábola da moeda perdida. Lc 15,9

“Alegrai-vos comigo, encontrei a moeda perdida!”Alegria que vem da busca de valores dentro de nós, que também vale a pena!

Parábola do parto, Jo 16,21

“Quando a criança nascer, a mulher fica alegre, por ter gerado um ser humano.”Alegria que vem da dor, da luta sofrida para que haja vida, fecundidade, um futuro de esperança.

Parábola do Pai amoroso, Lc 15, 32

“Era preciso festejar e nos alegrar, pois esse teu irmão estava morto e reviveu!” Alegria de refazer laços quebrados, de entrar e sair na liberdade do amor.

Parábola do servo fiel, Mt 24,46 e  25,21;23

“Servo bom e fiel, entre na minha alegria! Feliz o servo a quem o dono de casa, ao chegar, encontrar assim! “Alegria da fidelidade, convidada a entrar na intimidade da casa e na alegria do Pai!

Parábola da videira, Jo 15, 5;11

“Eu sou a videira e vocês os ramos. Disse isso para que minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”. Partilha da alegria do próprio Jesus!

Deixemos que estas sementes do Projeto-já-em-ação de Deus encontrem abrigo em nossos corações e despertem devagar, regadas a oração e partilha fraternal! Tomemos, a partir de agora, hábitos de alegria e felicidade que permitam o crescimento da plantinha de mostarda!

Portanto nada de azedume e amargura diante das coisas que não deram certo ou já não servem mais… diante das perdas ou decepções, aparentes fracassos ou projetos abortados.

Antes, deixemo-nos provocar: por que não continuar a lista com nossas próprias parábolas, cheias de estranhas alegrias de cabeça para baixo, tão próximas das bem-aventuranças? Por que não acordar o povo com essas pérolas de profecia-sabedoria que jorram do cotidiano, do baú da vida consagrada, da sua história e do seu carisma, das suas velhas e novas experiências?

  1. Terminando sem concluir, com um profeta nordestino…

Que sirva de convite à criatividade e de palavra inicial e não final a tocante parábola da Cana, fruto da vida e da saborosa meditação do poeta e profeta nordestino:

“ Pessoas Cana-de-açúcar,

São aquelas que mesmo sendo moídas,

Esmagadas e espremidas pelas circunstâncias da vida,

só sabem dar o melhor de si: Doçura.”

Dom Helder Câmara

 

[1] Nasci na Bélgica. Desde 1976, vivo em comunidades de inserção no Nordeste do Brasil. Exerço meu ministério na área da formação, acompanhamento espiritual e assessoria junto a CRB. Annetteism2@gmail.com

[2] VC: Vida religiosa Consagrada.

[3] Alegrai-vos, ano da VC, Carta circular aos consagrados e consagradas, 12.

[4] A alegria do Evangelho, Exortação apostólica do Papa Francisco.

[5] Frankl, Vitor, “Em busca de sentido” Prefácio da Edição de 1984

[6] Instituto Humanitas Unisinos, entrevista de setembro 2012.

[7] Livro dos corações, em oposição ao livro das faces!

deixar um comentário

* campo obrigatório

Convergência

Revista da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB)

continue
boletim informativo

Assine a newsletter

Siga-nos no..