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Setembro 2015

Arte de envelhecer feliz na Vida Consagrada

Frei Carlos Josaphat OP

Frei Carlos Josaphat OP

 

No centro da mensagem do Evangelho e de toda espiritualidade que ele suscita e anima, resplandece a beleza transformadora do Amor infinito e universal. Ele vem despertar no íntimo dos corações e no desenrolar da história da Igreja e do mundo, o sonho e o anseio de buscar a perfeição, a plenitude de toda a vida humana, sob a energia suave e transformadora da graça. Essa força criativa e reparadora do amor divino se manifesta de maneira eminente na consagração e no dom de si, estendendo-se à duração e à diversidade das idades e etapas da existência, que podem formar o tecido de uma longa existência.

A arte de envelhecer feliz na vida consagrada é uma das mais belas e discretas finezas da graça. Ela assume e eleva a natureza, mostrando-se semente de eternidade, fecundando os recursos e as fragilidades do tempo em uma vida humana que apostou totalmente no Amor.

Enfrentar a idolatria e o comércio da aparência

Semelhante mensagem da espiritualidade evangélica tem que começar por enfrentar a mentalidade contrária, tão generalizada que passa por natural. Certa tendência, ampla senão dominadora hoje, faz da experiência o critério da autenticidade e felicidade da vida. Exalta, curte e cultiva o amor, mas como uma aventura segmentada, maravilhosa enquanto dura sua derradeira etapa. Pois seduz e encanta qual momento de pleno êxito, em meio aos altos e baixos das paixões e aos ritmos caprichosos dos prazeres. A persistência do amor é tida como o prêmio passageiro do vigor e da aparência de um organismo e de um psiquismo, sujeitos e estimulados à mudança afetiva. Esta é a normalidade, a lei comum em um mundo dom-juanesco, que enaltece a conquista e a concorrência, nas relações amorosas, no estilo do que se passa nos sistemas econômicos.

De maneira mais ou menos consciente, a vida consagrada se defronta com o bulício dessa pós-modernidade que joga as aventuras afetivas, sexuais, tanto mais cotadas, quanto mais se oferecem, se compram e vendem no mercado da sensualidade tecnológica. Elas se fragmentam e se multiplicam para dar lucro, no tempo profícuo da juventude, que é proveitoso prolongar. Então, o sonho e mesmo a luta se concentram em descartar, à força de maquiagem e cirurgia, a desditosa velhice, malquista qual importuna sacanagem da natureza,

Enfrentando esse desafio, ostensivo, agressivo ou jeitosamente disfarçado, a vida consagrada há de realizar hoje de modo original a sentença radical do Mestre divino: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 25). Pois, no extremo do mercantilismo moderno, o que está em jogo e se expõe à venda é a própria vida, envolvida numa fantasia de amar ou até de fazer de conta que se ama. Os “famosos” e mais ainda as “famosas” vendem a vida aos pedaços, apressando-se e mesmo se angustiando em colocar seu corpo no mercado enquanto podem ter a chance de um preço compensador.

O envelhecer à luz da dignidade humana e evangélica da pessoa

Em meio desse contexto, que a mídia generaliza, e em contraste com a desvalorização da vida e da pessoa, a consagração religiosa emerge reconhecendo e professando a dignidade humana, enaltecendo-a acima de todo preço, estimando-a em todas as suas idades e etapas. Ela acolhe e compreende em toda sua verdade a mensagem do Apóstolo: “Tudo é vosso, vós sois de Cristo, Cristo é de Deus” (1 Cor 3, 23). Os coríntios, destinatários dessa sentença luminosa, viviam em uma cidade famosa pela busca requintada dos prazeres da gula e do sexo.

Paulo exalta então o ideal evangélico da verdadeira felicidade, da qualidade de vida que se enraíza primeiro no verdadeiro amor, optando por uma santidade que faz da existência um tecido de liberdade e de dom de si. Nessa visão integral do existir, as etapas da vida ganham sentido e coerência, harmonizando-se quais obras primas do Artista divino. Das grandezas, dos recursos, mas também das fragilidades da natureza, a graça faz surgir a nova criação do amor, que assume e enaltece todo o humano, ainda o mais fraco e humilde.

Ao refletir sobre a complexidade, as condições reais e as idades diferentes, mas, conexas, da criatura humana, os olhos da inteligência e do coração se encantam com as amáveis surpresas de Deus. Os artistas, que se pense nos poetas e pintores, se sentem criadores ao toque das belezas das coisas, dos jogos suaves das cores, das luzes, nas miudezas fascinantes dos lírios e dos pássaros ou na imensidão das montanhas e dos céus. A teologia da beleza, na Igreja que o Concílio redescobre e nos ajuda a redescobrir em seu esplendor evangélico, desperta uma espiritualidade fascinada pela beleza de Deus, Amor universal, Criador e Santificador da humanidade, tão sublime em seus valores, mas sempre tão digna de estima em suas fragilidades.

O Evangelho se abre anunciando a linda aurora de um mundo novo, da humanidade que crê e aposta nas bem-aventuranças. É a santidade que se identifica com a felicidade, a alegria e beleza de viver o amor, que estima as aparências, sem as idolatrar como bem absoluto. A revelação divina vai tão longe que convida a contemplar e admirar a Infinita Beleza do Amor de Deus no corpo inerte e desfigurado de seu Filho na Cruz.

Teologia e espiritualidade em ação

À luz e na perspectiva dessa teologia e dessa espiritualidade da beleza, surge e toma todo o seu sentido a vida consagrada. Ela assume a graça do batismo e o Dom do Espírito, com que Deus unge seu povo, agraciando-o com as prerrogativas de sacerdotes, reis e profetas; É o que professamos na linguagem religiosa da Escritura. De maneira mais discreta, mas muito estimulante, essa Palavra divina criadora e santificadora se mostra ativa no dia a dia, nas gerações sucessivas através da história e nas etapas da vida de cada um das fiéis. Eles surgem então como outros tantos jardins cultivados pela graça ativando e elevando a liberdade. O Profeta se compraz em descrever o ser e a condição da criatura humana qual argila feliz e toda dócil nas mãos carinhosas do Artista criador (Jr 18, 4-6). A vida religiosa é a radicalização dessa primeira consagração, assumida e confirmada pelo inteiro dom da vida, em todas as suas idades, com seus recursos criativos e suas fragilidades. Estas estão longe de contrariar o projeto evangélico. Suscitando a humildade, melhor asseguram a entrega sem reserva à força do Amor todo misericordioso.

O envelhecer na vida consagrada emerge qual etapa singular da atividade e da fecundidade da graça divina, modelando carinhosamente a argila mais ou menos maleável de nossa liberdade, de nossa capacidade de amar. Acolhida na humilde ação de graças, a série dos anos vividos ajuda a se deixar transformar pelo amor e a tornar as pessoas consagradas instrumentos despretensiosos do Amor, que vem do Alto e as envolve mais e mais em suas redes cotidianas de fraternidade.

O amar com todo nosso ser e com toda a nossa inteligência começa pela estima, pela aceitação de nossa condição de estar sendo modelados à imagem de Cristo pela suave energia do Espírito de Amor. O que significa e exige discernir as etapas de nossa vida, sobretudo o dinamismo, os ritmos, os altos e mais ainda os baixos de nosso envelhecer pessoal, em correlação com as fases vividas pela comunidade, pela Igreja e pela sociedade.

Pois todo o humano tem suas etapas, distintas e conexas, de um desenvolvimento na corrente dos tempos.

Discernir os “sinais dos tempos” na própria vida e na história

Bem se poderia falar da arte, mas também da sabedoria, do dom e do discernimento que transformam em incansável história de amor, a existência consagrada se desdobrando no tempo. Entenda-se no tempo ou nos tempos de nosso próprio ser, assim como da Igreja, do mundo e de nossa comunidade. O envelhecer dessa vida consagrada manifesta e coroa as diversas formas e aventuras da sabedoria criativa da comunidade e de seus membros, empenhados em harmonizar os dons recebidos, em superar desafios e provações. Na diversidade das etapas, à luz do Evangelho, o tempo resplandece, então, qual tecido da graça, da felicidade de ser amado e de se dar em uma permanente comunhão do que há de melhor: do querer bem às pessoas e do querer o bem para as pessoas.

Atualizando para os nossos dias a expressão evangélica dos “sinais dos tempos”, na encíclica Pacem in terris (1963), São João XXIII nos convidava a livrar-nos da frieza do calendário desfolhando dias, meses e anos. Esse santo, tão irmão nosso, despertava os fiéis de hoje, como Jesus fazia com seus ouvintes, incitando-os a ver e acolher o tempo como precioso e variado tecido de graças. No Evangelho (Mt 16, 1-5 e paralelos), os “sinais dos tempos” indicavam a presença da Face velada mas amorosa do Pai, nos amando em seu Filho, que uniu e consagrou nosso tempo em sua Eternidade. Na encíclica citada, João XXIII convida a discernir o progresso dos “sinais dos tempos”, na marcha da história, permitindo a opção também mais ampla e profunda da justiça e do amor, engendrando e inserindo a paz no tecido da história pessoal, familiar, cultural e social. É o que corresponde às quatro séries de textos da Encíclica: no. 40-45; 75-79; 126-129; 142-145.

O tempo da vida se revela assim qual tecido de dons divinos para todas as criaturas. Mas para suas filhas e seus filhos, Deus multiplica e introduz no tempo as marcas, os “sinais” de sua presença de amor. Recomendações frequentes no decurso da Bíblia  traduzem esse empenho de Deus: “não se esqueçam, cuidado com o olvido, lembrem-se, comemorem, façam memoria de Mim”. Semelhante insistência, carinhosamente repetitiva, baliza as exortações do Deuteronômio, essa espécie de reedição afetiva da Lei, concentrada no preceito do amor universal e perfeito. A plenitude desse preceito e desse dom resplandece no Evangelho de João, que mostra a vida, a morte, a ressureição de Jesus como uma história de amor, e mesmo do Amor infinito e generoso do Pai que tudo nos dá, dando-nos seu Filho.

O fazer memória dos dons e, sobretudo, do Dom divino, é o lado íntimo e fecundo do tempo, fazendo reviver e frutificar hoje, as finezas e graças com que Deus enriqueceu nosso passado, sempre presente na sua divina e amorosa Eternidade. De uma pessoa, a gente comemora às vezes com tristeza: “Ele (ela) me esqueceu”. É como dizer: “Eu não existo mais para ela (ele)”. A felicidade de nossa vida está em superar a morte do esquecimento, mantendo-nos vivos e presentes na memória do Amor eterno e na comunidade que Ele anima, e que vive comemorando o Amor.

A evocação dessa mensagem evangélica é a primeira luz que manifesta a verdade profunda e o sentido autêntico da bem-aventurança que abraçamos na vida religiosa consagrada. Esta pode e deve culminar na felicidade de nela perseverar e envelhecer, distendendo uma história progressiva de amor, assumindo e elevando a realidade humana e a transcendência divina do tempo, tornado sementeira fecunda da Eternidade.

Encarar  o envelhecer

Portanto, para além da ideia abstrata do tempo do calendário e dos aniversários, é da maior importância verificar que o tempo real penetra a vida dos seres humanos, neles inserindo etapas e condições de existir, a serem enfrentadas e, sobretudo, assumidas como inevitáveis desafios para o bem viver e conviver. A autenticidade da vida consagrada começa por essa atitude de verdade, de sabedoria humana bem simples, de conhecimento e de atitude responsável de nos olhar no espelho espiritual e evangélico, discernindo como vamos sendo e devemos ser. Pois, nosso ser global de corpo e alma, rico em potencialidades se desdobra como uma história íntima, que se tece na liberdade e no amor. Haja coragem e até uma ponta de humor para aceitar e sondar a realidade experimental de nossas capacidades, falhas e fragilidades, testemunhadas em nosso atual jeito de pensar, de andar, de trabalhar ou de ser ajudados nas condições que vamos vivendo aqui e agora.

Ao entardecer da idade madura, a sabedoria está em encarar de frente a realidade, buscando discernir o sentido do envelhecer em que culminam o viver e o conviver em cada ser humano. A vida, em sua pujança, sobretudo em seu crescimento, em sua juventude, resplandece qual comunhão íntima de elementos, gozando, cada um, de certa especificidade, mas tendendo todos a se articular em bom intercambio e perfeita harmonia. Esses elementos são mantidos em sua força, em seu vaivém de continuas e mútuas influências, e até mesmo na capacidade de reparar senão de prevenir desgastes ou distorções. Em si, a vida é, portanto, comunhão, fluidez, amadurecimento harmonioso, mútua influência e intercâmbio íntimo, tocando e coordenando o próprio ser em suas diferentes partes, instâncias ou etapas de realização.

O envelhecer sucede ao pleno amadurecimento do ser vivo, especialmente do ser humano, estorvando-o e até travando-lhe a marcha ou perturbando sua imensa complexidade psicossomática. O processo de mudança se mostra penoso e mesmo doloroso no fenômeno geral que se denomina a esclerose, a diminuição da fluidez normal, que caracteriza o dinamismo de cada domínio ou função da vida. Tendem a se enrijecer os elementos ósseos, motores, circulatórios do sangue, da linfa, inibindo o intercâmbio, o mútuo influxo das células, sobretudo, cerebrais. Daí resulta um processo mais ou menos acelerado de perda da atividade e da boa articulação do conjunto dos elementos, de quase todos os sistemas e de algumas etapas da vida. As atividades motoras, sobretudo do andar, de bem medir os gestos, de manejar objetos e bem nortear sua utilização, todos esses desacertos culminam na diminuição ou na perda gradativa da vida mental, a começar pela memória.

Essa evocação sumária, em termos comuns, do processo de envelhecer, destacando o seu lado negativo, visa por em relevo a necessária busca da verdade sobre a realidade de nosso ser humano. Essa coragem da verdade é a base de toda ética e de toda espiritualidade autêntica. Não se pode recusar ou estranhar ser mais ou menos fragilizado pelos anos. Aceitar-se com lucidez e tranquilidade, é o bom começo indispensável para entrar e morar na felicidade de envelhecer, jogando com as luzes mais escassas da razão e vivendo a sabedoria do Evangelho.

Bem envelhecer, permanecer no amor

Na história intima de cada pessoa e na grande história da humanidade, a atitude serena e positiva diante do envelhecer se mostra relevante e mesmo decisiva para o êxito e a qualidade da existência individual, familiar e social. Desde milênios a humanidade conheceu o sistema do predomínio e da dominação dos anciãos, sob formas, mais ou menos pesadas da chamada gerontocracia. Sua presença perdurou – e ainda perdura – à frente da família, da sociedade, da religião. Ela vem bem testemunhada em todas as etapas da história bíblica, perpetuando-se em parte, mais ou menos atenuada no Povo Deus. É criticada em escritos bíblicos, proféticos e sapienciais, tais como o Livro de Daniel, os quais exerceram influência no Novo Testamento. Cristo não se cansa de vergastar os abusos e as distorções da gerontocracia religiosa, aliada à política em seu tempo e em seu povo. Ele morrerá vítima dos ressentimentos e dos ódios da velha casta dominante.

Sua nova Igreja acolhe os “anciãos”, dando-lhes lugar de relevo e procurando valorizar suas qualidades de experiência e contando com seu rejuvenescimento graças aos carismas do Espírito e à caridade evangélica. A hierarquia eclesiástica teve que lutar para não se tornar uma gerontocracia. Bem ao contrário, empenhou-se em juntar as contribuições dos “presbíteros” mais maduros, o vigor, a audácia dos mais jovens, esperando que da presença de todas as idades resulte a comunhão dos ministérios na orientação espiritual, evangélica da Igreja.

Vaticano II, causando alguma surpresa, levantou o grande problemas da plena e total renovação da Igreja e da vida religiosa, propondo e exigindo a atitude de opção radical e integral de um novo paradigma de Igreja e de vida consagrada, em que predominem a comunhão, o diálogo, a iniciativa e a docilidade dos fiéis sob a autoridade-serviço dos Pastores. E que não falte a toda a Igreja o discernimento dos “sinais dos tempos”. Tal é a inspiração de toda reflexão autêntica neste “tempo eclesial” dentro do “tempo cultural” de hoje. Em síntese, há de prevalecer o empenho de uma compreensão integral, discernindo as qualidades, os riscos e limites das idades, das etapas da vida pessoal, da marcha histórica da Igreja e da sociedade.

Sintetizando ainda mais a reflexão, pode-se partir do contraste que surge: da provação que vem do tempo, mais ainda do envelhecer, em confronto com o valor crítico e criativo daquele “permanecer no amor”, que é a norma suprema do Evangelho, já, em parte, pressentida pela sabedoria de uma consciência reta. As idades, especialmente o envelhecer, comportam a ameaça de mudanças, externas ou íntimas à existência, as quais podem dificultar a harmonia e frear a dinâmica da vida espiritual e apostólica. Semelhante ameaça contrasta com a primeira característica do amor no Evangelho: permanecer. Esta palavra é uma das características do IV Evangelho, que sintetiza no capítulo 15 sua mensagem de amor. O que facilita o confronto dessa mensagem com o amplo e sinuoso tema das mudanças, coibitivas ou perturbadoras, do envelhecer.

Permanecer não implica qualquer imobilidade ou inércia. O amor permanece suscitando ou mesmo criando atitudes novas em que o bem querer se afirma no bem fazer e bem servir e cuidar. Daí a norma imanente ao amor: permanecei na criatividade da benevolência animando a beneficência. Sobretudo no Quarto Evangelho, condensação da mensagem e da vida de Cristo no coração e na constituição da Igreja, permanecer ressoa como a palavra fundadora, como fio condutor ligando o Pai ao Filho, ligando o Filho eterno aos filhos adotivos de Deus Amor. A simples junção dos suaves e firmes imperativos, que daí resultam, forma um ramalhete de todos os dons e de toda beleza da verdadeira vida, proclamada por Jesus: Permanecei no amor, permanecei em mim como eu permaneço em vós, permanecei em minha Palavra, em meu Mandamento, permanecei na unidade de uma comunhão de amor, vindo do Pai e a Ele voltando pelo Filho e no Espírito.

À luz primordial do Evangelho, na perspectiva da primeira e constante conversão que ele oferece, como a primeira graça e primeira exigência, emerge e resplandece uma novidade, uma vida nova, uma nova criatura, um novo ser humano. Essa nova criação contrasta com a velhice do ser humano, quando ele cede à tendência de fechar-se em si mesmo, nas diferentes formas da vida individual ou corporativa, quando dominadas pelo desamor. Ocorre então a triste fragmentação do amor. A capacidade de querer bem e de dar-se, de acolher, de servir se pulveriza em miúdos apegos passageiros a prazeres, ambições, interesses consigo mesmo e com as lembranças de um passado enclausurado no amor próprio. Não permanecendo no amor, mesmo que fosse em suas formas menos ativas, a velhice se torna terrível decadência. Horrorizado com semelhante miséria difundida na Igreja e no mundo, G. Bernanos costumava dizer: “Essa velhice é uma invenção do demônio”.

A vida religiosa, pela sua consagração total aos valores e ao Deus do Evangelho, vem a ser uma aposta total, definitiva na “esperança que não decepciona”, fundada “no Amor difundido no íntimo de nossos corações pelo Espirito que nos foi dado” (Rm 5, 5).

Não sendo um simples sentimento, mas apego da inteligência à verdade, um permanecer na verdade da promessa que impele a buscar a verdade do bem a realizar, essa esperança enfrenta o supremo desafio no envelhecer biopsíquico das pessoas consagradas. Suas capacidades e disposições para a ação, para a militância, para marchar e para liderar, passam, em uma diminuição mais ou menos acentuada ou veloz. Tudo está em que não passe a capacidade de amar, a felicidade de permanecer no amor, mesmo se as palavras, os passos, os gestos se atenuam ou apenas se deixem adivinhar no silêncio e na quietude do querer bem.

Seria oportuno evocar a sentença de São João da Cruz: “Um só ato de puro amor (no coração) vale mais diante de Deus e para a Igreja do que todas as atividades mescladas de interesses particulares”. Essa máxima se encontra algumas vezes no grande Doutor da espiritualidade evangélica. Ela vem elucidada com muito empenho e carinho no comentário à estrofe 29 do Cântico Espiritual B. No prolongamento dessa maravilhosa doutrina, bem se poderia dizer: a fecundidade apostólica não corre risco com precariedade ou a falta de palavras e de ações acarretada pelo envelhecer. O risco é que o apóstolo envelheça e lhe falte “o puro amor”, a total união com Deus Amor, donde vem a verdadeira fecundidade da pregação e da ação evangelizadora. A felicidade de envelhecer está antes de tudo no permanecer e crescer no Amor.

Tempos da própria vida, tempos da comunidade

Para manter contato com a realidade, convém falar dos tempos mais do que do tempo. Buscamos considerar o envelhecer no próprio sujeito que ele atinge, como tempo interiorizado, com os elementos que o constituem e os efeitos que produz na própria pessoa e na comunidade, na Igreja e na sociedade.

Primeiro, aí está a pessoa consagrada, alma e corpo, habitada pelo Espírito, vivendo e reavivando sempre a consciência amorosa dessa presença, suave, mas exigente. Essa presença rejuvenesce a pessoa no seu íntimo. A conjunção desse contraste: da fragilidade crescente do envelhecer e da força suave, discreta do Espírito que habita a pessoa consagrada, eis o que constitui o supremo desafio. A infelicidade, a tristeza do “não mais” atuar, de menos fazer, de menos comunicar ou se afirmar pela aparência vai rondando a pessoa consagrada que envelhece no corpo e na mente. Que prevalecerá? Vai dominar o peso, a inércia, o apagar-se da velhice biopsíquica? Ou, na fraqueza do corpo desgastado, mas na energia da esperança que não decepciona, triunfará a felicidade de um envelhecer na alegria da Cruz e do Espírito que já “habita o nosso corpo mortal”?

Experiência da “noite escura e ditosa”

Por vezes, a vida ilustra com episódios bem simples esse emaranhado de problemas humanos e de desígnios divinos. Segurando as mãos frias de uma Irmã de Caridade (por sinal, minha irmã), havia tempos. imóvel no leito do hospital, perguntei-lhe: – como vai? Apenas conseguiu cochichar, com um sorriso que se deixava adivinhar: “Não vejo nada, não penso nada, mas nada me falta. Rezo no escuro só com Deus”. Que maravilha inesperada. No termo do seu envelhecer na caridade, ela balbuciava sua experiência da “noite escura e ditosa”, quase na linguagem de São João da Cruz, com um ligeiro toque de Santa Teresa de Jesus.

O envelhecer do discípulo de Cristo é a graça penúltima prenunciando e preparando a graça última do Amor onipotente e condescendente, que abre a porta para felicidade total e definitiva de amar e ser amado na Comunhão dos Santos, jorrando da Comunhão Trinitária.     

O campo primeiro da realização e da manifestação do processo de envelhecer é a pessoa mesma em seu ser orgânico, anatômico, biológico, psíquico, em sua capacidade, facilidade ou dificuldade de pensar, de memorizar, de decidir e de agir. Bem ligado a esse primeiro domínio individual, se estende o espaço das relações curtas, diretas e imediatas entre os membros da comunidade familiar, natural ou religiosa. Essas relações se coordenam e tecem as formas primárias de sociedade doméstica ou comunitária, núcleo primeiro e mais influente para favorecer o envelhecer feliz ou para erguer um muro de obstáculos a essa arte de bem viver e conviver. O lar é o primeiro santuário e a primeira escola da ética, da espiritualidade, do encontro pacífico e criativo entre as pessoas e com Deus, que se torna presente mais nas relações de carinho e ternura do que em práticas de devoção. Estas se destinam a favorecer a presença ativa, interativa da caridade.

Essa visão integral da espiritualidade se estende a todo domínio da vida consagrada, tendo uma aplicação mais urgente quando se trata do quadro e do clima que a comunidade oferece aos idosos, aos que são chamados à felicidade de envelhecer vivendo e convivendo na alegria de um mútuo querer bem.

Ainda uma confidência. Este ponto da reflexão é confirmada por uma mensagem vinda de Paris. Um grande e querido missionário dominicano, durante dezenas de anos advogado dos injustiçados e desprotegidos no Norte do Brasil, comunica – com alegria! – a sentença dos médicos: ele está definitivamente condenado a uma cadeira de rodas. Reza, participa da vida da comunidade e permanece em contato com seu campo apostólico. A idade e o acidente cerebral imobilizaram o apóstolo, apoio dos trabalhadores da terra, apoio jurídico e evangélico dos agro-opresssores. Mas, as fraquezas do corpo em nada diminuíram a vida contemplativa e a energia do Amor nesse pregador inquebrantável da Verdade libertadora.

Os tempos da Igreja, das sociedades, das culturas

Uma instituição como a Igreja, plurissecular, plurinacional, pluricultural, guarda e afirma mais ou menos bem sua juventude, por uma fluidez permanente em seu modo de existir, de agir, de reagir diante dos desafios e conflitos dos tempos. A velhice é a esclerose nas instituições, nos comportamentos, no jeito de pensar, de falar, de ensinar. E normalmente, a Igreja se mostra jovem estando em relação positiva com a juventude, com a faixa dinâmica da sociedade, de maneira que o estilo da Igreja seduza e atraia os jovens e as jovens. Muito especialmente, a grande ventura estará em que Igreja e juventude se encontrem na utilização das novidades, das novas formas e técnicas de conhecimento, de ação e comunicação. Hoje, a tecnologia digital, a linguagem virtual encanta e mobiliza a juventude, que se torna uma ponta de lança da cultura moderna e pós-moderna. Fala uma linguagem nova e própria, brincando com essa arte mágica de tecer relações na sociedade em geral e nos espaços mais dinâmicos: esportes, culturas, diversões, artes, modas e turismos, no teatro permanente da telecomunicação, grandiosa ou nanica.

Bem se poderia dizer: o bom manejo, a manipulação acertada e até divertida da tecnologia que encanta as novas gerações, hão de ser compensadas e favorecidas pela sabedoria das idades maduras e encanecidas, elas também gozando de melhores condições de vida, garantidas pelos progressos das ciências e das técnicas, Essa feliz harmonia das gerações terá uma boa repercussão nas várias etapas, especialmente no envelhecer da vida consagrada: os tempos pessoais têm tudo a ganhar com o bom êxito dos tempos da própria comunidade e de toda a humanidade. Os temores fundados não provém dos progressos, por mais acelerados que sejam, das novas tecnologias. Como sempre e cada vez mais, os receios sensatos e prudentes visam a egolatria individual e coletiva, que pode, mas não deve acompanhar um crescimento desigual, pouco partilhado, da economia, da educação, da comunicação e do poder político no mundo.

Envelhecer: a psicologia se abrindo à espiritualidade

Aqui, em seus desafios extremos, surge aquela norma exigente e constante da vida consagrada. Em todo tempo e lugar, ela há de saber assumir a verdade humana do momento pessoal, comunitário, social, que se está vivendo, conciliando-a com a verdade divina, da graça, da vocação à santidade, que nos eleva à dimensão da união e do dom de nosso ser em sua dimensão teologal, da fé, esperança e caridade.

Pode ser oportuno e proveitoso confrontar a experiência psicológica do envelhecer com o retrato espiritual traçado pelos grandes mestres quando se empenham em mostrar-nos as belas alturas humanas e evangélicas em que deve culminar a perfeição de uma vida consagrada. Sintetizando uma doutrina, por vezes um tanto longa, porque pretende sempre ser completa, convém consultar o grande guia da teologia, sobretudo em sua dimensão espiritual que vem ser Santo Tomás de Aquino. Nos seus amplos e caprichados tratados sobre o conjunto das virtudes e dos dons do Espírito, Tomás se compraz em desenhar com rigor e fineza aquele projeto de perfeição terminal a que deve chegar a vocação humana que se confia ao sopro e à energia transformadora da graça.

Depois de construir o “santuário doutrinal”, das eminentes virtudes teologais e cardeais, culminando sempre na mística dos Dons do Espírito Santo, o amável Mestre nos pega pela mão e nos convida a descer ao subsolo do sua construção Aí, ele aponta para o que há de mais humilde, pouco ostensivo, mas constitui as vigas sustentando todo o edifício. Ele trata das virtudes da Amizade ou Afabilidade, da Alegria, da Paz, absolutamente necessárias e a que todos na comunidade têm direito, incumbindo igualmente  a todos o dever de praticá-las.

Assim, o ser humano se eleva à felicidade de um bem querer e um bem fazer acima de todo a perturbação ou inquietude de egoísmo e de seus desmandos. A harmonia da afetividade chega até a desabrochar numa virtude que diríamos do “Bom Humor”. Tomás chega a dizer que nenhum ambiente humano, menos ainda uma comunidade religiosa, deve ser invadido pela “tristeza”, mas há de ser arejada pela virtude (!) da “jovialidade”.

Ele insiste em estigmatizar o “vício” da tristeza, esse clima de mormaço nas relações cotidianas, cuja persistência compromete a qualidade humana e virtuosa de uma vida comunitária. Ele se compraz em expor minuciosamente a mencionada virtude do Bom Humor, enaltecendo as atividades lúdicas, necessárias à saúde espiritual tanto da pessoa como da sociedade. Tais são as graciosas questões 114, 120, que encerram o Tratado da Justiça, a que se junta questão 168, que vem no fim do estudo da Temperança. Todas essas questões coroam com toques de delicadeza o rigoroso estudo das virtudes, na Segunda Parte (a II-II) da Suma de Teologia de Santo Tomás.

Está aí para este encantador Mestre dominicano o caminho exigente, mas suavizado pela esperança, ajudado pela caridade fraterna que há de trilhar, com passos talvez um tanto trôpegos, quem vai envelhecendo no convívio e na partilha de uma vida consagrada. Na medida de sua autenticidade, este estilo de vida tende, portanto, a crescer e se estender em paz, em amabilidade, em afabilidade, no gosto partilhado do silêncio e da palavra, de trabalhar, de descansar, de cantar e de rir juntos.

Para ilustrar essa doutrina um tanto rígida talvez, em sua expressão ideal, nada de melhor do que contemplá-la realizada na vida real de uma comunidade. O que Tomás de Aquino expõe em certa fraternidade com os filósofos, São João da Cruz descreve irmanando-se com os poetas. Vai cantando para ajudar a galgar a Montanha ou a curtir a Noite escura, mas, que há de se tornar sempre ditosa.

Mas o que nos interessa mais ainda seria lançar um olhar discreto sobre Santa Teresa de Ávila, ela mesma se chama Teresa de Jesus, admirando-a não tanto em seus êxtases, em sua oração, em suas caminhadas de andarilha fundadora de conventos. Mas, sim, surpreendê-la precisamente nas suas tardes de recreação com suas religiosas, rindo, cantando, despertando riso e fazendo todas cantar. Chegava a improvisar poesias e canções que atravessaram os cinco séculos que nos separam dela, quando comemoramos agora o quinto centenário de seu nascimento.

Um sinal tocante da harmonia de sua vida em que se aglutinavam a contemplação divina e a alegria de se divertir com as irmãs resplandece nestes pequenos episódios. Em uma tarde de confraternização jubilosa, uma jovem irmã se põe a cantar as belezas do Amor divino. Madre Teresa a acompanha, E cantando e sorrindo, cai em êxtase para edificação delas todas.

Teresa sabia e ensinava com a maior segurança e delicadeza: viver, conviver, envelhecer em uma comunidade votada à perfeição evangélica há de ser uma felicidade, uma alegria nem sempre poética e cantante, mas sempre muito real e profunda “como o Amor difundido em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado” (Rm 5, 5).

Memória, o passado vivido, condicionando a marcha do presente e o rumo do futuro

A pessoa consagrada, em certo momento do envelhecer, está aí como um sujeito que livremente escolheu seu destino, optou pelo projeto de realização dos valores evangélicos. E no entardecer da vida constata que viveu bem ou mal esse projeto. Sua memória é esta sua história vivida, de maneira mais ou menos consciente, mais ou menos atenta à qualidade de seu presente, de seu envelhecer.

Quase sempre a memória entra na apreciação de quem considera seu processo de envelhecimento como desagradável feito negativo. Ele lamenta estar perdendo a memória e se pergunta como remediar essa falha com alguma chance de êxito. Não se minimiza aqui essa preocupação psicológica, que, no entanto, não entra em nossa reflexão atual. Nosso interesse primordial se concentra na apreciação da memória de que a pessoa é o sujeito e o objeto, articulando e buscando compreender o conteúdo de suas lembranças em relação com sua possível responsabilidade.

Os mestres espirituais, Agostinho, Boaventura, João da Cruz põem em grande relevo a dimensão afetiva na constituição e na qualidade da memória. Nisto são precursores das modernas psicologias das profundezas, que têm outros interesses e métodos de conhecimento. Pode ser esclarecedor o recurso a João da Cruz e especialmente a sua síntese bem didática na Subida do Monte Carmelo, Livro III, capítulo 1-15. Ele destaca no centro do conteúdo e da dinâmica da memória, a sua motivação profunda e vivida que leva a dar atenção e a reter informações sobre coisas, eventos, situações, pessoas, integrando-os como um tesouro próprio, que influencia a pessoa e passa a ser uma fonte de suas atitudes.

Para além das questões de lembrar ou esquecer nomes de pessoas, dos lugares ou de qualquer pormenor menos relevante, a insistência de base de João da Cruz se concentra nos interesses marcantes, nos apegos ao que é tido como valor para o sujeito, e acaba constituindo seu tesouro interior. Um cabedal crescente do que influiu num momento e vai agora passar a influir e orientar afeições, tendências, escolhas e em fim de contas determinar as opções e as orientações da existência.

O envelhecer será o processo de crescimento e fixação desse capital afetivo de medos, de contentamentos, de desejos, de sentimentos e ressentimentos, da marcha ou da inércia desse psiquismo vivido e que se vai vivendo, com mais ou menos felicidade. E então Mestre João da Cruz entra com sua experiência e sua linguagem ascéticas e místicas: é preciso limpar, esvaziar a memória, introduzi-la na noite que não mais deixa aparecer e influir as lembranças de tudo o que era ambição, apegos de ontem e de hoje. E, assim, desta “noite”, deste “vazio” da memória a graça faz surgir, crescer e expandir-se a esperança de Deus e dos bens divinos.

A radicalidade dessa limpeza e desse vazio da memória não significa qualquer apagamento do conhecimento. O que é tocado e transfigurado é a motivação que presidiu e poderia dominar ainda a aquisição interesseira, ambiciosa e egocêntrica dos conhecimentos. A esperança evangélica, teologal lança sobre a memória a grande luz do Bem e do Amor divino, tudo convertendo e transfigurando a esta luz. Há uma releitura da história passada, todos os bens sendo vistos com dons de Deus, na força suave da ação de graças, prologada pela esperança de viver, de envelhecer em um projeto de amor, de dom de si ao amor.

Recapitulando e sugerindo

Nossa reflexão não visa entrar nos pormenores das medidas a tomar, das eventuais instituições a constituir e manter para favorecer boas condições de amparo e convivência para a faixa da chamada terceira idade. Nosso primeiro empenho aqui é esboçar as linhas de uma espiritualidade, de uma visão evangélica do permanecer no amor em todas as vicissitudes do tempo, prolongando até o fim os laços de amizade fraterna que é a vida religiosa consagrada.

– Primeiro risco a evitar. Essa atitude de pleno acerto da caridade evangélica começa por exorcizar um erro do egoísmo individual e social que pode invadir a vida religiosa: considerar a velhice apenas como um problema. Com aquela sua pedagogia tão humana e tão divina, Jesus nos ensina o que vem a ser o próximo cujo conhecimento e cuja acolhida nos fazem viver com Deus e para Deus. Nosso Mestre declara que o primeiro erro segundo seu Evangelho é passar ou ficar longe do necessitado. O bom samaritano começa por se aproximar, deixando-se então tocar e animar pela misericórdia.

Uma comunidade religiosa não pode se construir de um feixe de grupos separados. Nada de enclausurar em recantos isolados: noviços, formandos, enfermos, idosos, deixando-os permanentemente alheios aos interesses uns dos outros e ao bem comum de toda a comunidade. Sem dúvida para que tudo vá bem, o dedicado bom samaritano precisa confiar o necessitado a uma estalagem boa e acolhedora. Mas seu amor está sempre de olho, sempre atento e cuidadoso. As necessidades, criadas pelo envelhecimento, devem ser uma fonte constante de aproximação, de maior presença de todos a todos.

A comunidade se há organizar como um espaço de aconchego, um jardim favorável ao florescimento de todas as etapas da vida humana em modelos de santidade evangélica.

Curtir a experiência do próprio envelhecer.  Convém encarar de dentro nosso processo de envelhecer. Esse processo comporta o sobreviver com o risco de solidão. Esta se agrava com o acúmulo de fracassos e de decepções. Tanta gente amiga que se foi. Sonhos e esperanças se esvaíram. Bons projetos pessoais, da comunidade, da Igreja, do País foram por água abaixo ou se realizaram até por menos da metade.  A memória do idoso corre o risco de encurtar-se ou de se concentrar em ilhas de desencanto, senão de desalento, outros tantos frutos de um rançoso egoísmo que se esconde e disfarça. Essa situação de um envelhecer penoso, pode, então, ser a resultante e o testemunho de uma vida religiosa que, em parte ou em todo, se tornava uma existência enclausurada em si mesma.

Para todas as formas de vida consagrada e em todas suas etapas, a atitude criativa e libertadora está em acolher o instante, o agora que é dado como uma graça, vivendo-o em harmonia com o tempo da Comunidade, da Igreja e da sociedade. À medida que avança a idade, deve crescer a convivência ativa e afetuosa, traduzindo-se na experiência constante de uma partilha de afeições e de uma comunhão de interesses. O acerto feliz e propulsor provém da dose de amor desinteressado, da preocupação generosa com os outros, mais ainda com o Reino do Amor acontecendo.

Um simples teste do acerto ou do desacerto dominante: ali está em seu canto tranquilo este religioso (esta religiosa), venerável, mas, com a idade, afastado das linhas de frente ou mesmo excluído de todas as atividades da comunidade. Aí surge a questão reveladora: Como aprecia as notícias jubilosas que (por acaso!) lhe chegam de que as “novas gerações” estão exultantes, resolvendo velhos problemas e avançando excelentes projetos para a renovação da comunidade ou da Igreja? No rosto, invadido talvez de rugas e manchas importunas, desabrochará um sorriso de aprovação? O que se vê é um gesto de aplauso? Ou se ouve apenas um muxoxo de ciúme machucado?

Bem envelhece quem aprendeu a exultar com o êxito e a felicidade do outro, mais ainda da comunidade. A primeira fonte da felicidade, jorrando no alvorecer ou no entardecer da existência, é o amor desinteressado, todo identificado com o bem do outro e para o outro, sempre atento e alegre ao contemplar as ondas do Amor inundando a comunidade, a Igreja e o mundo de Deus e nosso.

A chave da felicidade de envelhecer. A felicidade, a beleza escondida de envelhecer na vida consagrada resplandece assim qual dom maravilhoso da graça a ser acolhido e cultivado em todas as comunidades. A prioridade não está em considerar e assumir a velhice, primordialmente, como um cuidado a mais, menos ainda como um fardo ou uma despesa. Esse empenho realista tem na verdade seu lugar, emerge como um dado e uma exigência nada negligenciáveis. No seu conjunto, com o progresso da medicina curativa e preventiva, a velhice cresce no mundo. Todas as famílias e sociedades pós-modernas hão de enfrentar o envelhecer como um feixe de questões, comportando uma ampla dimensão técnica e afetiva, o empenho de cuidar e a generosidade econômica em investir.

Em sua qualidade humana e sua inspiração evangélica, a vida religiosa há de resplandecer como o mais belo exemplo, mostrando como em toda parte as comunidades cultivam e mostram a beleza do amor evangélico, na comunhão de todas as idades. A inteligência e a técnica a serviço do amor fazem com que as comunidades religiosas sejam santuários de ternura tanto quanto de oração. Pois, na medida em que realizam seu carisma, sua forma própria de viver o amor, elas refulgem quais milagres, da caridade em um mundo de egoísmo requintado.

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QUESTÕES PARA O DIÁLOGO NA COMUNIDADE

– A sua comunidade está animada da estima, do empenho firme, inteligente, eficiente de ajudar os idosos a prosseguir sempre participando da vida e dos interesses espirituais e apostólicos da comunidade?

– Já se conseguiu estabelecer um bom sistema de apoio, de ajuda aos que vão envelhecendo ou chegaram ao ponto de precisarem de um cuidado especial e constante? Há alguma coisa a acrescentar ou melhorar?

– Praticamente, como conciliar a segregação dos idosos, quando necessária, com as atitudes fraternas para mantê-los o mais possível em contato e no convívio com a comunidade?

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