ReliPress | RELIGIOUS LIFE PRESS
Outubro 2015

Ano da Vida Consagrada e a intercongregacionalidade

“Espero que cada forma de Vida Consagrada se interrogue sobre o que pedem Deus e a humanidade de hoje.”

Carta Apostólica  – Às pessoas Consagradas, Nº 5
Ir. Vera Lucia Palermo

Às Irmãs e aos Irmãos da Vida Religiosa Consagrada.

O tema proposto para este artigo é refletirmos sobre o Ano da Vida Consagrada e Intercongregacionalidade. Seguem aqui algumas pistas e questionamentos com a pretensão apenas de nos ajudar a refletir sobre o tema da intercongregacionalidade e a proposta do Ano da Vida Consagrada, que é retomar o caminho já percorrido, a pisar o chão presente do caminho e a vislumbrar novas possibilidades para um futuro de esperança para as nossas Congregações na realidade hodierna da Vida Religiosa Consagrada.

A busca de algo novo que nos dê esperança

Neste ano somos convocados pelo Papa Francisco a tomarmos nas mãos a nossa vida consagrada e nos colocar com os pés no chão na estrada e caminhar em busca de novos paradigmas que alimentem nossa vida e missão inseridos na realidade atual de mundo.

Estamos vivendo uma época de muitas mudanças, e como Vida Religiosa Consagrada, estamos inseridas/os na crise na qual vive o Brasil e o mundo. A Vida Religiosa Consagrada é convidada neste ano a buscar novos caminhos deixando-se surpreender por Deus.

A busca de novos caminhos exige de nós um total desprendimento e abertura para o novo, pois sabemos que o caminho não está traçado; o caminho se faz passo a passo; e precisamos de muita determinação, persistência e vivência de uma profunda mística que coloca Jesus Cristo como o centro de nossa vida e missão de Consagradas/os para darmos passos significativos em busca da concretização de um novo jeito de SER Vida Religiosa.

Caminheiro, você sabe, não existe caminho; passo a passo, pouco a pouco e o caminho se faz. O caminho se faz quando nos colocamos dispostas/os a caminhar, pois é caminhando que conhecemos o caminho. Sem esta disposição não podemos vislumbrar o horizonte que desponta para nós, na busca do núcleo identitário da VC. Muitas vezes, nos acomodamos achando que a estrada já está pronta. É urgente refletirmos sobre a realidade de nossas Congregações, nos dias atuais, pois vivemos numa época difícil, poucas vocações, envelhecimento, num mundo fragmentado… Relações cada vez mais fragilizadas pelo individualismo que invade nossa sociedade e também a nossa vida de comunidade.

A canção de Benedito Prado reflete a realidade do mundo, hoje: Perdido, confuso, vazio, sozinho na estrada tentando encontrar um caminho que seja o meu, não importa se é duro, eu quero buscar”.  Estamos em busca do núcleo identitário da nossa Vida de Consagradas/os e precisamos permanecer juntos no caminho, para descobrir a novidade que Jesus nos traz ao partilhar o pão no cotidiano de nossa vida e missão Intercongregacional, pois Jesus se faz caminheiro conosco. Ele nos alcança e caminha ao nosso lado falando-nos ao coração do seu projeto de vida. Sabemos que a realidade contemporânea invade e influencia a nossa vida de consagradas/os, e é dentro deste contexto, que somos chamados a SER profecia, sinal de esperança e ultrapassar os limites congregacionais, em vista da missão. É pertinente perguntar-nos: Que caminhos novos precisamos buscar para melhor corresponder ao anúncio do Evangelho em resposta ao que Deus e a humanidade pedem de nós?

Olhar os Sinais dos Tempos Modernos

O Papa Francisco, referindo-se à realidade atual, na Encíclica Alegria do Evangelho, diz que:

O individualismo pós-moderno e globalizado favorece um estilo de vida que debilita o desenvolvimento e a estabilidade dos vínculos entre as pessoas e distorce os vínculos familiares. (EG. 67) …. Neste tempo em que as redes e demais instrumentos da comunicação humana alcançaram progressos inauditos, sentimos o desafio de descobrir e transmitir a «mística» de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o abraço, apoiar-nos, participar nesta maré um pouco caótica que pode transformar-se numa verdadeira experiência de fraternidade, numa caravana solidária, numa peregrinação sagrada.(EG. 87)

Ele convida a VRC a “deixar-se surpreender”, a “abrir-se ao inesperado”, a “despertar o mundo”, a “ser peritos em comunhão”, pois a missão nos chama, hoje, a percorrer outros e novos caminhos.

Estamos vivendo tempos difíceis em nível mundial…. guerras, violência, tráfico de pessoas e de drogas aumentam assustadoramente. E no Brasil vivemos uma crise de democracia nunca vista. Como podemos discernir, hoje, os sinais do tempo e dar uma resposta quando tudo nos leva a um individualismo contagiante?

Vivemos num mundo globalizado sistemicamente desenvolvido, e profundamente individualista. No livro a Sociedade Individualizada Bauman diz que: … “A globalização rápida da rede do poder parece conspirar e colaborar com uma política de vida privada…”

Segundo Bauman, a sociedade mundial vive imersa em uma crise de relacionamentos vivendo em uma “sociedade líquida e individualizada”. Em seu livro “Amor Líquido” ele afirma que o “amor líquido” representa a fragilidade dos laços humanos e uma série de artimanhas que os seres humanos engendram para substituí-lo. Segundo o autor, o amor líquido é resultado da modernidade líquida. Esse período se traduz num mundo cada vez mais fragmentado, individualizado e de um sujeito (pessoa) cada vez mais confuso consigo mesmo, com o espaço que ocupa e com o tempo que o rodeia.

Essa crise provocada pela modernidade líquida assola o indivíduo com o individualismo e o narcisismo exacerbado. Vive-se hoje num mundo fragmentado, sem referências e à deriva. Essa nova realidade tem afetado diretamente o cotidiano das pessoas, trazendo interferências negativas, em especial nos relacionamentos. A vida Religiosa Consagrada também é diretamente afetada por essa realidade e estamos sentindo concretamente os efeitos dessa crise nas opções vocacionais da juventude, que, imobilizada, já não faz compromissos duradouros.

Bauman reflete ainda sobre esse retrato do mundo contemporâneo enfatizando que “o amor líquido” acontece tanto nos relacionamentos pessoais como no convívio social cotidiano, numa sociedade mediada pela tecnologia. Ele diz também que:

(…) talvez seja por isso que, em vez de relatar suas experiências e expectativas utilizando termos como “relacionar-se” e “relacionamentos”, as pessoas falem cada vez mais em “conexões”, ou “conectar-se” e “ser conectado”. Em vez de parceiros, preferem falar em “redes” sociais. (Bauman, 2005, p.12)

Desta forma, a internet assumiu a função de conectar pessoas, formar redes de relacionamentos cada vez mais flexíveis. Segundo Bauman, a modernidade líquida criou uma nova era nos relacionamentos, que estão cada vez mais fragilizados e desumanizados. Neste contexto como SER e VIVER uma Vida Religiosa Consagrada de solidez e leveza como SINAL do Reino proposto por Jesus de Nazaré?

Ano da Vida Consagrada:
Chamados a pisar no chão da nossa Vida Religiosa Consagrada

É neste contexto que o Papa Francisco, ao proclamar Ano da Vida Consagrada, nos convida a pisar no chão da “Vida Consagrada na Igreja Hoje: Evangelho, Profecia e Esperança”. Com este lema somos convocadas/os a percorrer novos caminhos. Com objetivos bem claros e concretos ter a ousadia de olhar o passado com gratidão, revendo os marcos de nossa história para ver, além do nosso cotidiano, trazendo à memória as pegadas de nossos passos deixadas sobre o chão. “Deus viu que tudo era bom” relata o poema da criação. Tudo o que vivemos como Vida Religiosa Consagrada no passado foi muito bom para aquela época, pois vivemos situações que marcaram profundamente a VRC. Hoje, estamos vivendo época de mudanças e uma mudança de época e precisamos pisar neste presente e vivê-lo com paixão e projetar o futuro com solidez e leveza “fazendo novas todas as coisas”.

Olhemos o passado e nos alegremos agradecidas/os, pois Deus nos conduziu até o presente com mão forte. “Javé ia à frente deles: de dia, numa coluna de nuvem, para guiá-los; de noite, numa coluna de fogo, para iluminá-los.” (Ex 13,21)

Ao retomarmos o que passou, quais os marcos deixados na estrada da vida do povo que desejamos relembrar para continuar? Quais situações não foram tão boas que queremos relembrar para mudar e dar novo sentido? Com que leveza vamos assumir o presente para darmos passos significativos de mudanças de qualidade em nossas congregações?

Assumir com paixão o presente como um gesto da bondade de Deus que envia o seu Espírito sobre nós, preenchendo-nos de esperança e profecia para vivermos na total gratuidade a Boa Notícia do Evangelho, anunciando, com nossa vida, o projeto de vida do Filho de Deus que, conduzido pelo Espírito do Pai, anuncia o seu plano de amor para toda a humanidade. “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu, para anunciar a Boa-Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano aceito da parte do Senhor.” (Lc 4,18-19) Para que nos consagramos? Jesus tem clara sua missão e nós temos claros os objetivos de fundação de nossas Congregações, bem como os objetivos da nossa consagração?

 Viver o presente com paixão pisando no chão das realidades do mundo em que vivemos, e das nossas congregações, saindo pelas estradas e encruzilhadas da vida, cheias/os de compaixão, exige que vivamos em um estado permanente de profecia. Viver com uma paixão que vem de dentro de nossas entranhas, a qual nos move a viver uma mística bebida da fonte da Sabedoria Bíblica, que nos coloca no chão da vida do nosso povo sofrido, faz-nos buscar um novo paradigma para a VRC vivendo a dialética da profecia.

A canção de Benedito Prado diz que: Iguais, são todos iguais, ninguém tem coragem sequer de pensar…Será que não vale a pena arriscar tudo, tudo, e  a vida encontrar?” A pergunta é pertinente. Será que não vale a pena arriscar tudo, tudo e a vida encontrar? Qual é o “tudo” que a Vida Religiosa Consagrada é convidada a ‘arriscar para a vida encontrar’, neste tempo presente?

Olhar o futuro com esperança é a grande profecia a que somos chamadas/os a viver. Vivê-la de modo novo “fazendo novas todas as coisas”; fazer opções sem medo do novo que nos é apontado pela proposta de intercongregacionalizar nossa vida e missão.

A nossa meta é olhar para o futuro com objetivos concretos e recriar as relações de fraternidade sendo peritas/os em comunhão nesta sociedade de relações líquidas que nos são apresentadas todos os dias.

Somos chamadas/os a viver uma confiança absoluta no Deus Divina Providência que caminha conosco e nos conduz na certeza de que novas sementes vão germinar e novos frutos vão surgir, de modo diferente, a partir das alianças, de novas redes e de colchas de retalhos que construiremos juntas/os vivendo em comunidades Intercongregacionais em vista da missão, do anúncio do Evangelho e do projeto de vida de Jesus, o Nazareno que não tinha onde reclinar a cabeça.

Jesus foi profundamente obediente ao Pai e para cumprir a sua vontade “humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte – e morte de cruz”!  É urgente discernir a vontade de Deus para vivermos um futuro de solidez e leveza dando uma resposta ao que Deus e a humanidade pedem de nós, Vida Religiosa Consagrada hodierna.

As palavras de São Paulo nos faz pisar o chão do caminho do seguimento de Jesus, fazendo-nos refletir e discernir os sinais dos tempos: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito.”(Rm 12,2) Este versículo nos coloca no chão da vida e nos convida a não nos conformar com a realidade em que vivemos, mas a transformá-la através de nossa participação ativa e concreta na sociedade.

A paixão por Jesus e o desejo de que seja conhecido e amado é o coração da missão Intercongregacional: Todas/os nós discípulas/os, que vivemos de Jesus, queremos que ele seja conhecido e amado. Queremos ser servidoras/es entre os pobres, consolo e fortaleza do coração dos que sofrem. Somos chamadas/os a dar vida por toda a humanidade, a comunicar a beleza, a leveza e o vigor de Jesus, a reconciliar e unir todos os povos.

A todo instante, Jesus nos chama para a missão; as instruções que Ele nos passa são as mesmas que foram passadas aos primeiros discípulos.  “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos”. Mt 28,19-20

O Papa Francisco faz provocações pertinentes à Vida Religiosa Consagrada. “Espero que «desperteis o mundo», porque a nota característica da vida consagrada é a profecia…. Os religiosos e as religiosas, como todas as outras pessoas consagradas, são chamados a ser «peritos em comunhão»….

Intercongregacionalidade

A intercongregacionalidade devido à missão é um tema que já há algum tempo vem sendo refletido pela VRC, e algumas congregações vêm assumindo concretamente este novo jeito de viver a missão dando continuidade ao projeto de vida de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância”! (Jo,10,10).

Podemos lembrar aqui alguns testemunhos intercongregacionais: Projeto Missionário Intercongregacional Brasil – Timor Leste; uma cooperação CRB Nacional e CNBB. O projeto permaneceu em Timor Leste por 11 anos e muitas congregações femininas participaram tecendo a vida, juntas. Este projeto continua agora no Haiti com a presença de várias congregaçoes. Temos também a experiência em Manaquiri no Amazonas, CRB/SP e CNBB Sul 1. Foram mais de 10 anos e muitas congregações participaram desta missão e lançaram suas redes nas águas profundas dos rios Solimoes e Negro. São muitas histórias para contar, muita vida dada, doada, repartida. Quem viveu estas experiências não cessa de agradecer a Deus por tanto amor. Temos ainda outras iniciativas em outras Regionais da CRB destacando a experiência da CRB/MG, bem como o projeto itinerante em Manaus/AM. Sabemos também de iniciativas de algumas congregações que se juntam em projetos comuns pela a missão e assumindo compromissos missionários no Brasil e também além fronteira.

A Intercongrecionalidade é concretamente uma aliança que esta acontecendo entre Congregações já há alguns anos na Vida Religiosa Consagrada. É um desafio que nos convida a superar a segregação Congregacional e partirmos para um novo jeito de vivermos a Vida Religiosa. Os Carismas partilhados são sementes lançadas em outros campos para geminar e florir propostas novas para vivermos como Vida Religiosa Consagrada em estado permanente de profecia. A missão é o motivo primeiro de nossa união; por isso, somos convidadas/os a nos deixar conduzir pelo Espírito Santo. Dessa forma, obedientes ao Espirito de Deus, somos conduzidas/os além-fronteiras de nossas Congregações para outros lugares onde a vida é ameaçada e a criação continua a gemer em dores de parto.

Enquanto houver pessoas que não vivem dignamente não podemos sossegar um instante sequer. Enquanto houver pessoas que não têm onde reclinar a cabeça não podemos dormir sossegadas/os. Enquanto houver discriminação racial e de gênero, tráfico de pessoas e de drogas, não podemos fixar moradia, pois Jesus nos convida a sair. «Vamos para outra parte, para as aldeias vizinhas, a fim de pregar aí, pois foi para isso que Eu vim.» Mc 1,38. Precisamos Ser uma vida religiosa de saída…. itinerante… discípula missionária…..

Fazendo referência à intercongregacionalidade o Papa Francisco ressalta o que espera da VC:

“… espero que cresça a comunhão entre os membros dos diferentes Institutos. Não poderia este Ano ser ocasião de sair, com maior coragem, das fronteiras do próprio Instituto para se elaborar em conjunto, em nível local e global, projetos comuns de formação, de evangelização, de intervenções sociais? Poder-se-á assim oferecer, de forma mais eficaz, um real testemunho profético. A comunhão e o encontro entre diferentes carismas e vocações é um caminho de esperança. Ninguém constrói o futuro isolando-se, nem contando apenas com as próprias forças, mas reconhecendo-se na verdade de uma comunhão que sempre se abre ao encontro, ao diálogo, à escuta, à ajuda mútua e nos preserva da doença da auto-referencialidade.” “….espero que saibais, sem vos perder em vãs «utopias», criar «outros lugares» onde se viva a lógica evangélica do dom, da fraternidade, do acolhimento da diversidade, do amor recíproco…”  Qual o medo que temos e vivemos quando falamos em intercongregacionalizar nossa vida e missão?

Olhando com gratidão a história passada da VRC

Fazendo um parêntese, vamos voltar às fontes da VRC para percerbemos como o caminho traçado teve muitas mudanças. Em diversos momentos foram surgindo urgências e a necessidade de assumir novos paradigmas, e estes se tornaram marcos importantes para a uma caminhada de fidelidade ao projeto de Deus.

Vemos que, desde sua origem, a Vida Religiosa Consagrada sempre foi uma profecia, isso desde os primeiros monges do deserto, quando se rebelaram contra uma Igreja pomposa e infiel à sua origem. A VRC, no decorrer dos anos e dos séculos, sempre revelou e revela pessoas individualmente ou grupos que vivem de forma profética, procurando imitar o próprio Jesus Cristo. No seu estilo de vida e seguimento radical, tiveram a coragem de fazer mudanças no momento certo.

Ao longo da sua história a Vida Religiosa Consagrada exprimiu-se de diversas formas originais, e para responder aos sinais dos tempos atesta a vitalidade e a criatividade em resposta às exigências do Evangelho e às necessidades de cada época. Alguns, em forma de consagração a título pessoal, como os primeiros ascetas, as virgens e as viúvas; outros, em forma de grupos organizados, como as ordens monásticas, as mendicantes, os clérigos regulares, etc., que constituem a Vida Religiosa Consagrada propriamente dita.

Sabemos que uma primeira expressão de Vida Religiosa Consagrada foi a vida monástica ou eremítica. Ela teve início por volta dos anos 250 d.c. com alguns ascetas cristãos que se retiram para viver em cabanas, não muito longe das cidades e aldeias, sobretudo no Egito.

Quase nesta mesma época apareceram também Santo Antão e São Pacômio. Eles deram origem à vida cenobítica. A característica própria deste modelo já não é a vida solitária, mas a vida em comum.

Já as comunidades de São Basílio são um modelo muito diferente das de São Pacômio. São Basílio estabelece sua comunidade próxima da cidade; será comunidade aberta.

Para Santo Agostinho, a caridade, a comunhão fraterna, a unidade de vida serão os elementos constitutivos da Vida Religiosa Consagrada concebida por ele. A vida monástica agostiniana tem o seu fundamento na prática da vida comum na sua radicalidade. Sua proposta é viver a vida em comum, modelo dos cristãos primitivos, que viviam um só coração e uma só alma (At 4,32). Da comunhão no amor deriva a comunhão de bens. A Trindade de Deus é o verdadeiro modelo da comunidade agostiniana.

São Bento viveu numa época em que se chocaram dois mundos: o dos que queriam permanecer fiéis à civilização romana e o mundo dos bárbaros, destruidores dos valores que encontraram para impor os próprios valores. Era preciso alguém para fazer dialogar estes dois mundos, quem o conseguiu foi São Bento.

No início do século XIV emerge um mundo novo: o mundo do Renascimento, com uma nova cultura e a descoberta de novos mundos, o humanismo com a recuperação dos valores clássicos, a nova visão da vida. Neste contexto, vão surgir como resposta novas formas de Vida Religiosa Consagrada, que se articulam à volta dos clérigos regulares.

Tanto as estruturas monásticas como as mendicantes já não respondiam às exigências deste novo contexto sociocultural. Era necessário lançar-se nas várias frentes com que o novo contexto os desafiava.

Para responder a estas novas situações aparecem três modelos de vida religiosa: as sociedades de vida comum apostólica, as congregações clericais de votos simples e as congregações laicais de votos simples. Um novo meio de vida religiosa consagrada, inaugurada por São Francisco e São Domingos, atrai também muitas mulheres.

Destacam-se algumas mulheres influentes na vida religiosa feminina e na transformação dos mosteiros. É o caso de Santa Catarina de Siena, Teresa D’Ávila reformadora do Carmelo feminino dentre outras que as seguiram fundando novas Congregaçoes.

Algumas características marcantes da vida consagrada neste período foram: a resposta a urgências sociais e eclesiais de toda a espécie, e aparecem as congregações com um fim específico: (educação, assistência, ensino, cuidado aos doentes); o despertar do interesse missionário (aparecem as congregações especificamente missionárias); a “internacionalidade” (as congregações tornam-se cada vez mais internacionais).

No século XX acentuam-se a estabilidade e o imobilismo, agora apoiados e promovidos pela reforma do direito canônico. Porém, é com o Concílio Vaticano II que a VRC tem a oportunidade de mostrar seu rosto profético. Ele pede, em síntese, segundo a Perfectae Caritatis: a volta ao Evangelho; ao carisma dos fundadores e fundadoras; a abertura aos movimentos da Igreja e aos sinais dos tempos, e a renovação espiritual.

O objetivo desta retomada histórica é ler os fatos passados para pisarmos no chão da realidade que vive a VRC hoje e termos a certeza de que precisamos dar passos, pois vivemos uma mudança de época que exige de nós novos posicionamentos quanto à nossa vida e missão congregacionais.

Intercongregar:
Firmar alianças, tricotar redes, misturar retalhos.

Por vários motivos a hodierna situação social e eclesial exige de nós um novo modelo de Vida Religiosa Consagrada. A característica fundamental da Vida Religiosa Consagrada hoje deve ser a disponibilidade para esta missão sem fronteiras. Os valores que articulam a Vida Religiosa Consagrada estão em função desta missão e desta disponibilidade: a vida de oração, a vivência dos votos, a vida em comunidade. Esta comunidade apostólica missionária não será tanto um conjunto de pessoas que vivem sob o mesmo teto, mas um elo que une a/o religiosa/o a Jesus para a missão. A comunidade é o lugar do discernimento, onde se elabora o projeto apostólico, o modo e os meios de levar a cabo a missão do instituto. É uma comunidade que se reúne para sair…partir. É a missão que as/os reúne e as/os mantém unidas/os. Nesse sentido, a comunidade se abre para firmar alianças, tricotar redes, misturar retalhos em vista da Missão.

Firmar alianças de carismas, elos que cheguem até aos confins da terra. “Ide …. ao mundo inteiro e anunciai o Evangelho a todas as Criaturas”. Não só ao ser humano, mas ao cosmo, ao universo inteiro, pois toda a Criação geme em dores de parto.

Tecer…. tricotar redes entre nós Vida Religiosa Consagrada e nos lançar em águas  profundas; nos abismos do ser humano e resgatar vidas ameaçadas no mundo que sofre. Homens e mulheres, idosos, jovens e crianças que vivem injustiçados e sem direito à vida digna. Lançai as redes em águas mais profundas, este é o mandato de Jesus. “Eles foram mar adentro e lançaram as redes” e convidaram os companheiros para puxar as redes e colheram 150 grandes peixes. Sozinhos, não seria possível, mas juntos, fizeram a grande pesca, e Jesus estava no meio deles, olhando tudo e incentivando-os a ir em frente, com confiança e esperança, dando a certeza de que Ele estará junto até o fim dos tempos.

Misturar retalhos e formar uma grande colcha de solidariedade e contagiar o mundo: numa cultura diversificada, superar preconceitos, apontar novos paradigmas, criar laços de fraternidade dando origem a relacionamentos maduros e duradouros em contraposição à sociedade líquida que nos vem sendo imposta. Viver experiências místicas que deem um novo colorido cultural em nossa vida de comunidade para costurarmos juntas/os uma nova sociedade pisando no chão da vida e vivendo plenamente o projeto de vida de Jesus de Nazaré “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” Jo 10,10.

Misturar sonhos e acreditar num novo céu e numa nova terra, sendo portadores de profecia, pois “há uma esperança para o teu (nosso) futuro” Jr 31,17. Encarnar nossa vida na vida cotidiana do povo, nas suas urgências, e com ele, fazer surgir um novo pentecostes para uma Vida Religiosa Consagrada feliz, cheia de gratidão, testemunho da paixão e compaixão por toda a criação.  Sermos peritos em comunhão não somente entre os seres humanos, mas abraçar o planeta inteiro com toda a diversidade de vida. Abraçando toda criatura, vivendo, respeitando e cuidando para renascer das águas do Espírito que sopra onde quer, e vivifica e dá sentido para a todo o ser vivente.

Intercongregar os carismas, os sonhos, os projetos, as comunidades. O carisma de cada instituto é dom do Espírito, assim as experiências e situações históricas novas são verdadeiros impulsos do Espírito, e podem levar a Vida Religiosa Consagrada a novas e inéditas expressões de carismas formando uma grande rede de solidariedade em vista da missão. Ana Roy dizia que “A Vida religiosa é convidada de modo permanente a ultrapassar suas próprias fronteiras e seus próprios horizontes. Deve envolver-se em novas experiências sócio-históricas e culturais… que levam a novas práticas de fé-história-cultura”.

A Vida Religiosa Consagrada ao longo dos anos tem vivido várias iniciativas intercongregacionais na formação e em redes de enfrentamento a questões específicas como: Direitos Humanos, Violência e exploração sexual de mulheres e crianças, tráfico de pessoas… Vale ressaltar que a intercongregacionalidade em vista da missão permanece ainda muito no campo da racionalização, do desejo e da reflexão. É urgente avançar, ultrapassar limites, dar passos significativos de parcerias, firmar alianças com a finalidade de expandir o projeto do Reino de Deus a lugares onde a presença da Vida Religiosa Consagrada ainda não chegou. Em lugares aonde ninguém vai… Jesus é nosso ponto de união…. Nosso ponto em comum…. O mais vira por acréscimo.

Concluir?

Não …. não…  não temos o que concluir, pois a vida tem início… tem passagem …. tem travessia …. é caminho…. é continuidade ….. é dialética …. é eterna. Fazemos passagem…. de um tempo para o outro …  travessia de um lado ao outro….. de uma vida terrena para uma vida de eternidade.

Olhando o que foi vivido desde os primórdios da VRC vemos marcos deixados ao longo da estrada que teve altos e baixos…. alegrias e desafios e vemos os tempos atuais como um  presente que deve ser vivido com toda a profecia e esperança, pois é nele que nossos pés caminham vislumbrando novos horizontes e o futuro que nos espera para ser vivido com profecia, alegria e esperança, pois a vida nova desponta bonita e radiante e nos convida a SER O EVANGELHO vivo, … a boa notícia,… a profecia,… o anúncio… a denúncia e, sobretudo, SER esperança.

Jesus é o centro e a fonte de nossos carismas e como tal nos une em missão para encarnar o Reino de Deus no mundo. Ele é a nova e eterna aliança e é em torno dele que vivemos os projetos Congregacionais e Intercongregacionais em vista da missão.

Estão hoje surgindo, na Vida Religiosa Consagrada, novos caminhos, mas a sua identificação com as Congregações estão ainda por discernir. Podemos, no entanto, apontar algumas características ou tendências destes novos caminhos: a prioridade da vida sobre as estruturas; a redescoberta do Espírito Santo, da oração, do louvor e dos valores da missão; a sensibilidade aos pobres, nomeadamente aos novos pobres e excluídos da nossa sociedade; a superação de formas estandartizadas da vida religiosa clássica; a busca de estruturas leves; a colaboração com diversas congregações vivendo em comum seus carismas numa só comunidade; a hospitalidade e acolhimento a quantos queiram partilhar sua vida.

“E assim se fez. E Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã… … … e tudo era muito bom.”….

Refletir.

  1. O que ainda tememos quando ouvimos falar em intercongregacionalidade?
  2. Evangelho, profecia, gratidão, paixão e esperança são as palavras-chaves deste Ano da Vida Consagrada. Queremos realmente abrir espaço em nossas congregações para refletirmos sobre a urgência de fazermos alianças e ampliarmos redes, misturar retalhos intercongregacionais em vista da missão?
  3. Vamos defender nossas instituições ou nos abrirmos a novos caminhos para novas experiências?

 

BIBLIOGRAFIA

ANO DA VIDA CONSAGRADA; Alegrai-vos Carta Circular aos consagrados e Consagradas Do Magistério do Papa Francisco: São Paulo: Paulinas 2014
_____, Perscrutai, Carta Circular aos consagrados e Consagradas Do Magistério do Papa Francisco: São Paulo: Paulinas 2014

ARNAIZ, José Maria – Intercongregacionalidade: possível, conveniente, necessária e indispensável Convergência-abril 2012 nº 450
CARTA APOSTOLICA: As pessoas Consagradas em ocasião do Ano da Vida Consagrada– Paulinas 2014.

BAUMAN, Zygmunt.  Comunidade: a busca por segurança no mundo  atual. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editores, 2003.
______, Vida Liquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
______, Amor Liquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2005.
______, A modernidade Liquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
______, A Sociedade Individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2013.

LIBANIO, João Batista ampliar alianças Intercongregacionais, convergência – Ano XLIII – Nº 410 – Abril de 2008

PEREIRA, José Carlos – Novos Ventos Nos Conventos: Desvelando os meandros da Vida Religiosa Consagrada em vista de sua Renovação – São Paulo: Paulus 2015 coleção Vida Consagrada

PALERMO, Vera Lúcia – Intercongregacionalidade um jeito novo de viver a vida consagrada além-congregação e além-fronteiras –  Revista Clar: revista trimestral de vida religiosa, ISSN 0124-2172, Vol. 49,Nº.3,2011, p. 89-9

PAPA, Francisco – Encíclica Evangelii Gaudíum: sobre o anuncio da Evangelho no mundo Atual. São Paulo: Paulus 2014.

TEXTO BASE: Seminário nacional para a Vida Religiosa Consagrada: CRB Nacional. DF 2014.

Ir Vera Lucia Palermo SDS – Irmãs do Divino Salvador.
(Missionária Salvatoriana – Província São Paulo)
Assistente Social pela Universidade Estadual Paulista  (Unesp)
Especialização em Fé e Politica – Centro de Fé e Politica D. Helder Câmara – CEFEP – CNBB.
Especialização em Bíblia pelo Centro Bíblico Verbo e CEBI
– Participou no Projeto Missionário Intercongregacional CRB/SP em Manaquiri/AM/Brasil
– Participou do Projeto Missionário Intercongregacional Brasil – Timor Leste –CRB/CNBB
Endereço R. Saldanha Marinho 258 – Centro – 13.360-000 – Capivari /SP  veraluciapalermo@gmail.com

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