ReliPress | RELIGIOUS LIFE PRESS
Novembro 2015

Um olhar sobre a Vida Consagrada Apostólica

Nas trilhas do Vaticano II e do Papa Francisco

Vinícius Augusto Ribeiro Teixeira, C.M.[1] 

Os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica passam, hoje, por uma travessia particularmente tensa e arriscada. No terreno movediço de seus percursos, multiplicam-se incertezas e ampliam-se perplexidades. Estagnação, desalento e acomodação são tentações frequentes, embora misturadas a buscas sinceras, entregas generosas e tentativas de reconstrução. Pelo que se pode constatar, o ponto nevrálgico não reside no âmbito das estruturas, da manutenção de nossas obras ou da rentabilidade de nosso patrimônio. Não é também, na maioria das vezes, um problema ocasionado pela ausência de retas intenções ou de diretrizes seguras (belos documentos, felizmente, não nos faltam!). Trata-se de uma crise mais complexa e radical, uma crise estrutural, existencial mesmo, que desestabiliza as vivências que nos fundam, as convicções que nos sustentam, as motivações que nos impelem e as utopias que nos engajam. Crise que toca o que temos de mais essencial e estimulante, o que define nosso ser – possibilitando-nos viver com sentido e paixão contagiante a vocação recebida do Senhor – e configura nosso agir – explicitando a peculiaridade, a beleza e a relevância de nossa forma de vida[2].

Necessário se faz, então, perguntar o que está acontecendo e confrontar o estado atual de nossa vida e missão com a suprema regula do Evangelho, a herança dos fundadores, os apelos da Igreja e os clamores da realidade, tal como recomendou o Concílio Vaticano II (1962-1965), verdadeiro divisor de águas na história da Vida Consagrada (VC), convocando-a a uma autêntica conversão no viver, conviver, agir e transmitir. Tal itinerário foi apenas iniciado e sua continuidade está a exigir maturidade, lucidez e audácia, já que o confronto pode resultar incômodo, tocando feridas, questionando o já estabelecido, pondo a descoberto incongruências e equívocos, desinstalando-nos de fixações, supondo ora flexibilidade ora firmeza. Trata-se de voltar-nos criticamente sobre nós mesmos, tomando consciência do que nos tornamos em face do que somos chamados a ser, dentro dos distintos contextos sócio-eclesiais em que nos fazemos presentes e atuantes. Só assim, será possível desencadear um processo de recomposição do tecido da Vida Consagrada Apostólica (VCA)[3], revisitando seu núcleo, renovando sua face e evidenciando, com clareza sempre maior, sua perene atualidade. Revisar para revitalizar!

I – SITUAR-SE COM ESPERANÇA: REALISMO E LUCIDEZ [4]

1. Estado atual

A crise atual não é “apanágio” da VCA. Esta não representa uma instituição celeste, protegida das turbulências históricas e imune às suas consequências. Ao contrário, ela se estabelece nas malhas dos impactos sócio-culturais produzidos pela pós-modernidade, com toda carga de ambiguidade e contradição que suas expressões comportam: reconhecimento da subjetividade e recrudescimento do individualismo, valorização da pluralidade e relativismo ético, ampliação do mercado de trabalho e supremacia do lucro e da competição, secularismo e experiências religiosas pulverizadas, mundo virtual e esvaziamento das relações interpessoais, estímulo da afetividade e busca do interesse próprio, globalização econômica e novos rostos de pobres (migrantes clandestinos, dependentes químicos, trabalhadores subempregados, etc.), indústria da sofisticação da vida (meios de comunicação, aparelhos eletrônicos, produtos cosméticos, etc.) e precariedade dos serviços públicos elementares (saúde, educação, transporte, etc.)… Instaura-se, assim, um novo contexto, cujos desdobramentos, muitas vezes díspares, requerem consciência esclarecida, senso crítico e posicionamento resoluto. Saber posicionar-se em face da realidade é uma exigência que se impõe, se não quisermos viver à deriva, sem saber que rumo dar à nossa vida, como barcas soçobrando nos mares revoltos da cultura pós-moderna.

Neste convulsivo cenário de “mudança de época”, caracterizado por aceleradas e radicais transformações, a VCA se vê na encruzilhada de fenômenos emblemáticos e questionadores, que variam de acordo com os distintos ambientes culturais: vertiginosa diminuição do número de vocacionados(as) em contraposição ao rápido envelhecimento de nossos membros (basta ver antigas casas de formação agora destinadas ao acolhimento de nossos anciãos, a exercícios espirituais ou a outras finalidades)[5]; inconsistência vocacional e baixo índice de perseverança (saídas frequentes, compromissos instáveis e permanências desprovidas de convicção e entusiasmo); desencantamento, sensação de exaustão (ad intra) e redução da atratividade (ad extra); conflitivo descompasso e resistências mútuas entre distintas gerações e linhas de pensamento (dificuldade de interação e diálogo); progressiva perda da visibilidade e do prestígio de nossas obras e instituições (particularmente nos campos da educação, saúde e assistência social); relativização de normas e costumes que, outrora minuciosamente observados, forneciam segurança psicológica e aparente estabilidade disciplinar (uniformidade); dissolução ou fluidez de compromissos antes desejados e assumidos para a vida inteira (estabilidade, pertença, profissão perpétua, etc.); credibilidade moral ameaçada pelos imponderáveis casos de escândalo sexual, desvio econômico e abuso de poder; etc.

Ao lado e por detrás desses e de outros fenômenos conjunturais, pode-se observar e sentir, em não poucas pessoas consagradas, seja qual for a geração a que pertençam, a palidez da vida espiritual, a fragilidade dos laços comunitários, o declínio do empenho apostólico, a baixa no sentido de pertença, tal como densos nevoeiros a encobrir a memória e a profecia de seu gênero de vida. Embora se reconheça depositária de uma milenar tradição, na qual se harmonizam fecundidade contemplativa, empenho ascético, compromisso missionário e entrega martirial, a VCA se vê constantemente exposta a insídias que ameaçam conspurcar seus fundamentos mais sólidos, fraturando sua unidade de coração, espírito e ação. Os desafios são enormes e campeiam consagrados(as) de todas as idades e procedências, urgindo o aprofundamento da mística como resposta a uma espiritualidade epidérmica, ocasional e etérea; solicitando o estreitamento dos laços de fraternidade e comunhão, como resposta à tentação de fazer do eu o centro e a meta das próprias buscas e o critério decisivo dos discernimentos individuais e coletivos; requerendo a disponibilidade para a missão, recolocada no horizonte do Reino, como resposta alternativa ao marasmo pastoral, à sôfrega manutenção de instituições e à anemia profética do profissionalismo religioso. Numa palavra, a crise atual, ao mesmo tempo em que aponta para o esgotamento de um modelo histórico de VC, acena para a urgência de voltarmos à sua forma vitae original, cuja referência fontal e permanente não é outra senão o Evangelho: a pessoa, a mensagem e a missão de Jesus Cristo, seguido de perto por nossos fundadores(as). Como recorda o Vaticano II, no decreto Perfectae Caritatis: “Dado que a Vida Religiosa tem por norma última o seguimento de Cristo proposto no Evangelho, esta deve ser a regra suprema de todos os Institutos” (PC 2)[6]. Só assim, poderemos conquistar a maturidade, a liberdade e a coragem de que precisamos nos revestir para refundar com lucidez nossas estruturas pessoais, comunitárias e institucionais, apoiando-nos no manancial de vida contemplativa, fraterna e missionária que herdamos das gerações que nos precederam[7].

Aos desafios supramencionados, correspondem três tentações frequentemente elucidadas pelo Papa Francisco e mais uma vez nomeadas em sua Exortação Apostólica Evangelii gaudium (EG)[8], sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual: o “mundanismo espiritual” (nn. 93-97), a “autorreferencialidade” (nn. 8.94.95) e a “missão como apêndice” (nn. 78.273). Com fina sensibilidade e argúcia pastoral, o atual Pontífice delineia os principais desafios que interpelam a Igreja na hora presente. E o faz, particularmente, no capítulo II, ao discorrer sobre a crise do compromisso comunitário. Em três números, estende seu olhar à VC, aludindo à situação atual e englobando os aspectos fundantes de sua identidade:

“Hoje, nota-se em muitos agentes pastorais, mesmo pessoas consagradas, uma preocupação exacerbada pelos espaços pessoais de autonomia e relaxamento, que leva a viver os próprios deveres como mero apêndice da vida, como se não fizessem parte da própria identidade. Ao mesmo tempo, a vida espiritual confunde-se com alguns momentos religiosos que proporcionam algum alívio, mas não alimentam o encontro com os outros, o compromisso no mundo, a paixão pela evangelização. Assim, é possível notar em muitos agentes evangelizadores – não obstante rezem – uma acentuação do individualismo, uma crise de identidade e um declínio do fervor. São três males que se alimentam entre si” (EG 78).

“Para quantos estão feridos por antigas divisões, resulta difícil aceitar que os exortemos ao perdão e à reconciliação, porque pensam que ignoramos a sua dor ou pretendemos fazer-lhes perder a memória e os ideais. Mas, se virem o testemunho de comunidades autenticamente fraternas e reconciliadas, isso é sempre uma luz que atrai. Por isso me dói muito comprovar como em algumas comunidades cristãs, e mesmo entre pessoas consagradas, se dá espaço a várias formas de ódio, divisão, calúnia, difamação, vingança, ciúme, a desejos de impor as próprias ideias a todo o custo, e até perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas. A quem queremos evangelizar com estes comportamentos?” (EG 100).

“Em muitos lugares, há escassez de vocações ao sacerdócio e à Vida Consagrada. Frequentemente, deve-se isso à falta de ardor apostólico contagiante nas comunidades, pelo que estas não entusiasmam nem fascinam. Onde há vida, fervor, paixão de levar Cristo aos outros, surgem vocações genuínas” (EG 107).

Pela clareza e contundência, as palavras do Papa dispensam glosas e acréscimos. Entretanto, convém enfatizar cinco expressões que parecem traduzir, com incomum pertinência, limites, incongruências, tendências ou riscos que incidem diretamente sobre a VCA:

  • “Preocupação exacerbada pelos espaços pessoais de autonomia e relaxamento”: como decorrências do individualismo contemporâneo, regurgitam a prevalência da cultura do bem-estar e da satisfação pessoal, a auto-afirmação a todo custo, a sobreposição de demandas subjetivas e emocionais em relação a valores objetivos e exigências inegociáveis.
  • “Viver os próprios deveres como mero apêndice da vida, como se não fizessem parte da própria identidade”: porque desvinculadas de uma mais sólida experiência de fé e desprovidas de convicção vocacional, a disponibilidade se enfraquece e a missão deixa de ser fonte de sentido e revigoramento, sobretudo quando requer maior doação e renúncia, fadiga e sacrifício. Nunca será demais recordar que a força motriz da missão não se encontra na subjetividade do consagrado(a) ou em seu bem-estar. O que sustenta e orienta o ardor missionário é a experiência do Deus que chama e envia e a percepção de que há irmãos que necessitam e esperam.
  • “A vida espiritual confunde-se com momentos religiosos que proporcionam algum alívio, mas não alimentam o encontro com os outros, o compromisso no mundo, a paixão pela evangelização”: entendida como refúgio e isolamento e dissociada das outras dimensões da consagração, a vida espiritual se acanha, perdendo sua capacidade de interpelar a conduta pessoal, corrigir desvios e inflexões, iluminar o processo de conversão, aprimorar as relações humanas e arrojar o elã missionário. A originalidade da VCA repousa precisamente na unidade articulada entre mística, comunidade e missão, como dimensões de uma mesma identidade.
  • “Espaço a várias formas de ódio, divisão, calúnia, difamação, vingança, ciúme, a desejos de impor as próprias ideias a todo o custo, e até perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas”: ausência de valores humanos elementares, indispensáveis a qualquer convivência que se pretenda minimamente pacífica e verdadeiramente fraterna, pronta a testemunhar a força regeneradora do amor cristão, feito acolhimento, respeito, perdão, paciência e reconciliação. Desta integridade ética, dependerá sempre a qualidade do testemunho pessoal e comunitário.
  • “Escassez de vocações… Frequentemente, deve-se isso à falta de ardor apostólico contagiante nas comunidades, pelo que estas não entusiasmam nem fascinam”: uma das formas mais genuínas de animação vocacional é a paixão missionária que se difunde, despertando adesões e firmando compromissos. Quem de nós nunca se impressionou diante do testemunho de um(a) consagrado(a) feliz, generoso, esquecido de si, abnegado, visivelmente identificado com sua vocação e missão? No mar de palavras e imagens em que somos lançados pela sociedade da comunicação, os discursos e propagandas facilmente se perdem, ainda mais se não forem acompanhados de uma vida coerente, penetrada dos valores e ideais que se desejar propor aos outros.

De tudo o que foi dito, fica a certeza: frente às cisões e impactos provocados pela crise, precisamos voltar nosso olhar, concentrar nossa atenção e canalizar nossas energias para o tesouro da vocação, depositado pelo Senhor na fragilidade de nosso ser consagrado. Grande é o risco de nos preocuparmos apenas em consertar as fissuras e trincas do vaso de nossas estruturas, obras e instituições, atendo-nos a urgências práticas e descuidando do que é mais precioso e determinante para a qualidade de nossa entrega ao Reino. É de tanto sacrificar o essencial em função do urgente, que podemos deixar de lado a urgência do essencial. E este será sempre o caminho mais fácil: ficar nas superfícies e não descer às realidades mais profundas, porque são também as mais exigentes, as que demandam discernimento mais acurado, oração mais intensa, reflexão mais abrangente, quando não dolorosas rupturas, opções de maior valentia e até mesmo êxodos heroicos. Aqui, cabe perguntar: Quais as preocupações que nos inquietam? Quais os assuntos que compõem as pautas de nossas reuniões comunitárias e provinciais? Qual o conteúdo das visitas dos superiores(as) às comunidades locais? Tudo isso gira em torno ou aponta para o essencial, para o que realmente qualifica nossa conduta e amplia o horizonte de nossa fidelidade? Importa, pois, estabelecer prioridades claras e meios adequados para lograr a revitalização espiritual, comunitária e missionária necessária à recomposição do tecido da VCA e, assim, recuperar sua genuína riqueza, certos de que este tesouro “pertence a Deus e não a nós mesmos” (2Cor 4,7).

2. Realismo com esperança

Não podemos dizer que as estrelas morreram, simplesmente porque o céu está nebuloso. “Nem tudo está perdido por te acontecer alguma contrariedade”, alenta-nos a Imitação de Cristo, com sua habitual penetração psicológica (3,30,3)[9]. Para que o realismo não degenere em “pessimismo estéril”, obnubilando a percepção de toda bondade e beleza semeada pela VCA, como testemunha privilegiada da “alegria do Evangelho”, a este necessário realismo – que nos permite reconhecer avanços, retrocessos e estagnações – devemos unir a virtude peregrina da esperança, que amplia nossos horizontes e põe em marcha potencialidades às vezes inexploradas, já que “um maior realismo não deve significar menor confiança no Espírito, nem menor generosidade” (EG 84)[10]. Não podemos duvidar que o Espírito é capaz de fazer o novo desabrochar ali onde tudo parece fenecer. O momento que a VCA está vivendo não é, certamente, o melhor de todos, mas também não é o pior de sua história. É o momento que nos cabe assumir e enfrentar, com fé viva, esperança dinâmica e amor transbordante. E o Papa Francisco prossegue, ajudando-nos a proceder com maior clarividência e acerto, pingando em nossos olhos o colírio da fé:

“A alegria do Evangelho é tal que nada e ninguém no-la poderá tirar (cf. Jo 16,22). Os males de nosso mundo – e os da Igreja – não deveriam servir como desculpa para reduzir a nossa entrega e o nosso ardor. Vejamo-los como desafios para crescer. Além disso, o olhar crente é capaz de reconhecer a luz que o Espírito Santo sempre irradia no meio da escuridão, sem esquecer que, ‘onde abundou o pecado, superabundou a graça’ (Rm 5,20). A nossa fé é desafiada a entrever o vinho em que a água pode ser transformada, e a descobrir o trigo que cresce no meio do joio” (EG 84).

A esperança não é apenas a última que morre, mas, sobretudo, a primeira a abrir caminhos novos e, muitas vezes, imprevistos. Por isso, o autor sagrado não titubeia ao persuadir os cristãos da primeira hora, expostos também eles à ameaça da dispersão em meio às adversidades, ajudando-os a compreender que “a esperança, como âncora da vida, segura e firme” (Hb 6,19), apoia-se na fidelidade de Deus e aperfeiçoa a perseverança no bem começado: “Deus não é injusto para esquecer aquilo que estais fazendo e a caridade que demonstrastes em seu nome, servindo e continuando a servir os santos. Mas desejamos que cada um de vós mostre até o fim este mesmo empenho pela plena realização da esperança” (Hb 6,10-11). Ancorados na esperança, temos certeza de que o Senhor, em sua misteriosa sabedoria, contando com nossa cooperação convicta e laboriosa, haverá de inspirar-nos e conduzir-nos para colher os impulsos de crescimento, acrisolamento e transformação que as circunstâncias atuais podem propiciar, desde que não coloquemos obstáculos à ação de seu Espírito, que trabalha em nós, na Igreja e no mundo. Os momentos mais criativos da história da VC não se processaram sem corajosas rupturas. Crise e criatividade podem caminhar lado a lado, de mãos dadas. De nossa parte, isso implica reconhecer na crise uma brecha pela qual o Senhor se aproxima de nós para despertar-nos e recriar-nos. “Desamparados, afundamos e perecemos, mas visitados por vós, Senhor, erguemo-nos e vivemos. Com efeito, somos instáveis, mas vós nos dais firmeza; somos tíbios, mas vós nos dais fervor” (Imitação de Cristo, 3,14,2). Do turbilhão da crise atual, desde que assumida com fé, poderá sair uma VCA senão mais robusta, ao menos mais sensata e fecunda, capaz de levar descanso e esperança a uma humanidade traumatizada por tantos absurdos e contrastes. E os deslocamentos geográficos e culturais, que caracterizam o presente da VC, serão vistos como presságio de uma nova estação de radicalidade evangélica. Não podemos deixar que se apague a chama da confiança!

“Quem começa sem confiança, perdeu de antemão metade da batalha e enterra os seus talentos. Embora com a dolorosa consciência das próprias fraquezas, há que seguir em frente, sem se dar por vencido, e recordar o que disse o Senhor a São Paulo: ‘Basta-te a minha graça, porque a força se manifesta na fraqueza’ (2Cor 12,9)” (EG 85).

A questão é saber o que Deus tem a nos dizer neste momento preciso da história da VCA. Como tem se manifestado a força da Graça em meio à nossa fraqueza? Será que não conseguimos intuir, em meio ao cansaço e ao desalento, um apelo a voltar ao essencial, a revisar em profundidade a maneira como vivemos nossa vocação, a ter a coragem de nos despojar de estruturas e práticas fossilizadas, que engessam o dinamismo de nossa missão? Não percebemos que a diminuição quantitativa pode ser o caminho para um crescimento qualitativo em termos de vitalidade evangélica e carismática? Não escutamos uma provocação para sedimentar e irradiar com maior entusiasmo nossa paixão por Cristo, fazendo desta paixão o elemento unificador de nossa identidade na Igreja e no mundo de hoje? Quando transpassada pela fé, a crise não apenas desvela o que nos tornamos, mas incentiva-nos a partir em direção ao que devemos ser e fazer. Sem esperança, porém, a crise se torna sinônimo de desolação e fatalismo.

Analisando o status quo da VCA, podemos ser invadidos por uma sensação de fracasso e impotência, como se nenhuma de nossas tentativas estivesse germinando e nenhum rebento de revitalização pudesse despontar. Que isso não nos aconteça! O terreno é fértil e há muitas sementes espalhadas. Não sejamos “profetas de desgraças” (EG 84). Faz bem recordar que a VC não é um negócio, nem uma empresa, nem mesmo uma organização humanitária. O olhar da fé nos fará ver que se trata de algo muito mais profundo, significativo e relevante, que escapa a qualquer especulação. Se assim não fosse, esta forma de vida não nos teria cativado e atraído tão fortemente. O que conta, portanto, não são os êxitos e conquistas já alcançados, mas o amor convicto que depositamos em nossa consagração, amor que se difunde em compromisso persistente de fidelidade e no sim da perseverança renovado dia após dia, afinal “somos o que amamos”, como nos faz ver Santo Agostinho[11], e só o amor nos pode reestruturar por dentro, infundindo jovialidade e divisando horizontes de vitalidade e esperança. Com palavras lapidares, garante-nos o autor da Imitação de Cristo: “Tudo que procede do amor, por pobre e insignificante que pareça, produz abundantes frutos, porque a Deus não importa tanto a obra realizada, mas a intenção com que a realizamos” (1,15,1). Ao lado de realidades que murcham (mentalidades, estilos, costumes, instituições, etc.), algo promissor poderá desabrochar, novas formas de entender e encarnar o que a VCA tem de mais genuíno e essencial: a paixão por Cristo e pela humanidade, de modo a saciar nossas sedes e curar nossas feridas, habilitando-nos para sair ao encontro dos sedentos e feridos que aguardam nossa presença samaritana, capaz de ver, aproximar-se, comover-se e agir, “usando de misericórdia” (Lc 15,37). Em face dos impasses da VC, importa cultivar aquele “sentido de mistério”, de que fala o Santo Padre, no final de sua Exortação: a certeza interior de que o Senhor age em toda e qualquer circunstância, inclusive quando tudo parece sem saída, fecundando nossos anseios e buscas:

“A pessoa sabe, com certeza, que sua vida dará frutos, mas sem pretender conhecer como, onde ou quando; está segura de que não se perde nenhuma de suas obras feitas com amor, não se perde nenhuma de suas preocupações sinceras com os outros, não se perde nenhum ato de amor a Deus, não se perde nenhuma de suas generosas fadigas, não se perde nenhuma dolorosa paciência” (EG 279).

Certa vez, perguntaram ao Irmão Roger, fundador da Comunidade de Taizé, o que poderia comunicar esperança aos jovens de nosso tempo. Sua resposta foi surpreendente: “Os pobres, os contemplativos e os que convivem fraternalmente”. Exatamente o que a VCA é chamada a ser, como atualização do Evangelho, profecia do Reino e sinal de esperança. Temos aí, portanto, um caminho aberto para nós, se estivermos dispostos a recriar a esperança em nosso meio e a comunicá-la por onde quer que andemos: aprender com os pobres a viver o espírito das bem-aventuranças, aprender com os contemplativos a enxergar a presença de Deus na vida, aprender com os que convivem fraternalmente a tecer laços de comunhão. É a este objetivo que a esperança deve nos conduzir. É isso que a esperança tonifica e reacende entre nós. “Se trabalhamos e lutamos, é porque pomos nossa esperança no Deus vivo” (1Tm 4,10). Resta-nos, então, confiar no Espírito do Senhor, gastar nossas energias numa entrega criativa e generosa e deixar que sua aragem fecunda enxugue nossas lágrimas e faça frutificar nosso humilde e destemido empenho. “Não há maior liberdade do que a de deixar-se conduzir pelo Espírito, renunciando a calcular e controlar tudo e permitindo que ele nos ilumine, guie, dirija e impulsione para onde ele quiser” (EG 279). Peçamos, portanto, ao Deus de nossa vocação que abra nossos olhos à sua “presença escondida”, a fim de que descubramos que é aqui, na pobreza e na fragilidade da VC, que ele nos espera e que podemos acolher o sopro renovador de seu Espírito, sem o qual nossa consagração se reduziria a mero perfeccionismo. E o façamos, inspirando-nos nas palavras nascidas da contemplação do irmão universal que foi Charles de Foucauld (1858-1916)[12]:

Abre nossos olhos, Senhor, à tua presença escondida. Dá-nos teu olhar sobre tudo o que nos rodeia e aquela confiança a toda prova que concedes aos pequenos. É aqui, Senhor, na simplicidade e na pobreza de nossa própria humanidade, e mesmo no que em nós está ferido, que podemos te acolher e te dar o nosso pobre amor.

3. Ideais mobilizadores

A VC, assim como todo o cristianismo, sempre se definiu e pautou por ideais de indiscutível potencial mobilizador, capazes de harmonizar existência e projeto, realismo e utopia[13]. O maior deles, sem dúvida, é o que constituiu a opção fundamental de Jesus de Nazaré, centro dinamizador de sua experiência mística e de sua ação salvadora: o Reino de Deus, presente na história, mas ainda não plenamente realizado, oferecido como dádiva e apelo a todos, em particular aos pequenos, pobres e pecadores. Foi pelo Reino, para realizar a vontade do Pai e instaurar seu projeto de reconciliação, justiça e paz, que a existência de Jesus se consumiu e consumou num ato supremo de amor e liberdade. O Reino foi o ideal que norteou sua vida e missão, e que ele legou a seus seguidores como dom, herança e tarefa (cf. Mc 1,15; Mt 4,23; Lc 17,21).

O ideal cristão não é outro senão realizar a vocação batismal, “revestir-se do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,14), ou ainda, formulado de outro modo, atingir “a unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, o estado de homem perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4,13). Entre este ideal e a nossa realidade humana, estende-se o caminho do seguimento, com suas etapas de encontro, conversão, discipulado e missão (cf. DA 278)[14], atravessando toda a nossa existência, descortinando-nos o horizonte da plena comunhão com a Trindade, meta derradeira de nosso peregrinar. Neste caminho, somos sempre aprendizes e cada chegada representa uma nova partida. Santa Luísa de Marillac (1590-1660) traduziu esta experiência, referindo-se a Jesus Cristo como “exemplo a ser imitado, nem mais nem menos como o faria um aprendiz com seu mestre, se desejasse tornar-se perfeito” (SL A. 8)[15]. Na sequela Christi, não é possível parar: se não avançamos, recuamos. São Vicente de Paulo (1580-1660) soube dizê-lo de forma lapidar: “No caminho de Deus, não avançar é retroceder, já que o homem não pode permanecer sempre no mesmo estado e os que foram chamados devem prosseguir de virtude em virtude” (SV II, 129)[16]. Quem se deixa encontrar por Cristo e o encontra verdadeiramente, desperta para o amor do Pai e sente-se irresistivelmente atraído a uma sincera conversão, disposto a redimensionar toda a sua vida. Quem se coloca em permanente estado de conversão, pela humildade com que olha para si e pela confiança depositada na fidelidade daquele que o chamou, torna-se discípulo, identifica-se paulatinamente com o Mestre, descobre-o como espelho de sua vida e inspiração permanente de seu agir. Quem entra no discipulado, sai para a missão de testemunhar a força transformadora do Evangelho que se tornou sua regra e seu farol, ideal que ilumina sua consciência, purifica seus desejos e inflama sua vontade.

Para além das fronteiras do cristianismo, conhecemos ideais que se tornaram emblemáticos. O Fórum Social Mundial, em suas últimas edições, vem convocando as pessoas de boa vontade a lutar “por um outro mundo possível”, fruto de uma nova ordem, fundada na justiça e na solidariedade. A mitologia guarani fala da “Terra sem males”, como utopia que revigora e enlaça os povos indígenas numa luta sempre nova pelo “bem viver”. Todo ideal possui esta força de atração capaz de colocar a realidade em movimento, da mesma forma que o horizonte sempre convida a caminhar em sua direção. E, quanto mais nos avizinhamos do horizonte, mais parece que ele se distancia, embora o simples fato de contemplá-lo já seja suficiente para encher-nos de ânimo e fazer-nos prosseguir.

Apesar de estarem além das aquisições imediatas, os ideais não se confundem com projeções abstratas ou idealizações angélicas (risco do idealismo desencarnado). Se assim fosse, poderiam redundar em nefastas frustrações. Pelo contrário, os ideais mais elevados partem da realidade e a esclarecem, porque costumam corresponder aos desejos mais profundos, aos anseios mais legítimos e radicais de toda pessoa. Da janela de sua existência finita, de suas carências e contingências, o ser humano se volta para o infinito, abrindo-se a possibilidades ainda não alcançadas. É assim que os ideais se apresentam: tais como estrelas refulgentes a encantar as noites e a orientar as travessias, cintilando permanentemente nos horizontes individuais e coletivos. Erguem-se como valores inegociáveis, que comprometem e empenham nossa liberdade, reunindo forças, suscitando atitudes e sustentando esforços altamente humanizadores, como testemunham nossos fundadores(as) e tantas figuras modelares que nos precederam nas sendas da sequela Christi. Por isso, será sempre “salutar recordar-se dos primeiros cristãos e de tantos irmãos que, ao longo da história, se mantiveram transbordantes de alegria, cheios de coragem, incansáveis no anúncio e capazes de uma grande resistência ativa” (EG 263). De fato, não foram estratégias que congregaram os fundadores, mas ideais audaciosos e o desejo de torná-los realidade para a glória de Deus e o bem dos irmãos. Neste sentido, escreveu, certa vez, a grande Teresa de Jesus (1515-1582): “Viste o grande empreendimento a que desejamos nos dedicar (…). Está claro que precisamos trabalhar muito. E muito ajuda ter pensamentos elevados, para que as obras também o sejam”. Os ideais geram motivações, rompem o medo de ir além e se consolidam em um projeto unitário de vida, desdobrando-se em convicções, decisões e ações. Correspondem ao que temos de mais nobre e exigente, facilitando-nos o acesso às reservas de bondade, resistência e criatividade que trazemos em nosso interior.

Em se tratando da VCA, que ideais são estes? No encalço do ideal comum da vida cristã, as ênfases variam de acordo com as diferentes tradições espirituais e estão consignadas nas respectivas Regras ou Constituições. As formulações mais recorrentes são: santidade de vida, perfeição na caridade, radicalidade evangélica, imitação de Cristo, amor indiviso, realização da vontade de Deus, dom total de si, perseverança na fidelidade, zelo apostólico, fraternidade universal, etc. Ainda que traduzidos em outros termos, culturalmente mais ou menos inteligíveis, estes ideais não podem ser riscados de nosso firmamento ou negligenciados em nossas buscas e lutas cotidianas, tanto pelo que significam quanto pela virtude que irradiam. Sem referência a estes ideais, a pessoa consagrada se empobrece interiormente, podendo chegar ao ponto de não mais advertir sua própria pobreza.

O Papa Francisco sinalizou a força motriz do ideal inaciano (“ad maiorem Dei gloriam”) que inspira sua vida de companheiro de Jesus e contemplativus in actione:

“Unidos a Jesus, procuramos o que ele procura, amamos o que ele ama. Em última instância, o que procuramos é a glória do Pai, vivemos e agimos ‘para que seja prestado louvor à glória de sua graça’ (Ef 1,6). Se queremos entregar-nos a sério e com perseverança, esta motivação deve superar toda e qualquer outra. O que nos move em definitivo, o mais profundo, o maior, a razão e o sentido último de todo o resto é este: a glória do Pai que Jesus procurou durante toda a sua existência (…). Independentemente de que nos convenha, interesse, aproveite ou não, para além dos estreitos limites de nossos desejos, de nossa compreensão e de nossas motivações, evangelizamos para a maior glória do Pai que nos ama” (EG 267).

Se o horizonte da vida se reduz ao tamanho dos limites pessoais, comunitários e institucionais, acomodando-nos ao já obtido, paralisando-nos nos impasses ou encastelando-nos em conveniências e interesses, sem que alcemos voos mais audaciosos (ainda que mais arriscados) e nos disponhamos a entregas mais ardorosas, atrofia-se o dinamismo da VCA. A contemplação destes ideais empenhativos e a gradual apropriação dos mesmos robustecem a correspondência ao chamado do Senhor e infundem paz e segurança em meio aos sobressaltos, permitindo-nos amar e servir a Deus e aos irmãos mesmo quando provados e incompreendidos. Sem ideais, porém, torna-se difícil suportar as inevitáveis solidões e fracassos da vida. Como garante a sabedoria oriental, viver com sentido não significa esperar a tempestade passar, mas aprender a dançar na chuva. Permanece o desafio: encarnar e expressar os ideais que nos encorajam de maneira significativa e relevante para os nossos dias. E fazê-lo com convicção, imaginação e paixão. Afinal, “uma pessoa que não está convencida, entusiasmada, segura, enamorada, não convence ninguém” (EG 266). E nem sempre formulações e comportamentos de ontem conseguem responder às perguntas, necessidades e aspirações de hoje.

Quando perdemos de vista os ideais geradores de esperança, corremos o risco de ser tragados pelo imperativo do imediatismo, formulado pelo poeta romano Horácio (Odes I, 11,8) e introjetado pela cultura pós-moderna: “Carpe diem, quam minimum credula postero”. Em tempos de instabilidade – quando os horizontes se encurtam, a consciência se afrouxa e os compromissos se evaporam – para vencer o tédio, a ordem é sorver o momento presente até a última gota e depositar o mínimo de confiança no amanhã. Com a progressiva perda da consciência histórica, esfuma-se o passado, o futuro se escurece, ficando apenas o presente, sem memória e profecia, sem referenciais que avigorem e metas que comprometam. Perpassada por esta ideologia, a pessoa (também a consagrada!) se enclausura no efêmero das circunstâncias, de obtenções parciais, instintos primários e peripécias momentâneas, resignando-se a uma infrutífera ociosidade ou cerzindo sua vida de ativismos destituídos de princípios, critérios e finalidades. Implanta-se, então, o relativismo ético, cuja complexidade transparece na banalidade de jargões nada estranhos aos nossos ouvidos: “fazer por fazer”, “tanto faz como tanto fez”, “ninguém é de ninguém”, “deixa a vida me levar”, etc.

Sem utopias que nos responsabilizem e sonhos que nos arrojem, no lugar de ministros do Evangelho, artífices da fraternidade e peregrinos do Absoluto, veríamos fervilhar estrategistas compulsivos, navegantes sem porto e andarilhos sem meta. No quadro da VCA, a perda dos ideais que definem os rumos e traçam os percursos de suas travessias, redundaria na erosão de sua própria identidade de servidora do Evangelho, profecia do Reino e sinal de esperança neste mundo em ebulição. E o maior de todos os ideais será sempre a consumação da esperança escatológica: a vida eterna, vida plenificada pela comunhão com a Trindade Santa, da qual os consagrados(as) são prelúdio e antecipação[17]. A VC sempre se caracterizou por esta permanente tensão escatológica, ou seja, sua existência na Igreja e seu enraizamento na história – visibilizados na contemplação, na comunhão e na missão – se estendem para o que esperamos e seus ideais constitutivos apontam e antecipam a plenitude a que somos destinados: “Nossas tribulações momentâneas são leves em relação ao peso eterno de glória que elas nos preparam até o excesso. Não olhamos para as coisas que se veem, mas para as que não se veem; pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno” (2Cor 4,17-18). Não fosse, pois, esta promessa de eternidade, facultada pela ressurreição de Jesus e cujos lampejos podemos contemplar na brevidade do tempo – instando-nos a ir sempre além do que nos é dado aqui e agora – tudo o mais se reduziria à fugacidade do que já nos tornamos e possuímos, e o derradeiro destino da existência nada mais seria do que um indecifrável absurdo (cf. 1Cor 15,32).

Nesta hora em que nos toca viver, pessoas consagradas compenetradas de ideais serão pessoas reconciliadas e capazes de reconciliar, inquietas e dispostas a inquietar, transformadas e aptas a transformar, porque sempre cativadas por Cristo, dinamizadas pelo Espírito, incansáveis na busca da glória do Pai. A qualidade de uma consagração se mede pelos ideais que a iluminam e pelos esforços que a tornam possível, suscitando a adesão da inteligência e do coração, no recôndito da contemplação, na fraternidade do cotidiano e na aventura da entrega missionária. E, neste caminho, a formação desempenha papel insubstituível, proporcionando tempos e espaços favoráveis à assimilação de valores, projeção de metas, definição de princípios, formulação de propósitos e construção de um projeto unitário de VCA. Desse modo, paulatinamente, a pessoa do consagrado(a) vai se tornando uma transparência dos ideais que a orientam, daquilo que ela é chamada a ser. Com efeito, quem se convence do objetivo fundamental de sua vida, não mede esforços para atingi-lo, não teme a escuridão da noite, porque consegue divisar as estrelas e aguardar a aurora que virá.

Para rezar e refletir

A partir de suas vivências e percepções, considerando a realidade de sua vida pessoal, de sua comunidade local, de sua Província e de sua Congregação, faça um levantamento:

  1. Dos principais desafios que a sociedade contemporânea apresenta à VCA.
  2. Das consequências destes impactos no interior da VCA.
  3. Das interpelações que o Papa Francisco dirige à VCA.
  4. Das razões de nossa esperança frente à situação atual da VCA.
  5. Dos ideais mobilizadores que precisam ser retomados com maior insistência.

 


[1] Presbítero da Congregação da Missão (Vicentinos ou Lazaristas). E-mail: viniciusaugustocm@yahoo.com.br.

[2] Para uma compreensão mais ampla, vale retomar duas magistrais conferências apresentadas no Seminário Nacional da Vida Religiosa Consagrada, promovido pela CRB, em Itaici, Indaiatuba (SP), de 23 a 27 de fevereiro de 2012, tendo como tema: Vida Religiosa: a loucura que Deus escolheu para confundir o mundo. Ambas foram publicadas em Convergência, ano XLVII, n. 453, julho-agosto 2012: HAVENNE, Annette. A vivência hoje do núcleo identitário da Vida Religiosa Consagrada (pp. 462-471). / PALACIO, Carlos. Começar de novo: por uma reconstrução da especificidade da Vida Religiosa Apostólica (pp. 472-483).

[3] Neste ensaio, a expressão acomodatícia Vida Consagrada Apostólica visa englobar, em linhas gerais, os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedade de Vida Apostólica, distinguindo-os das Ordens e Comunidades monásticas e contemplativas, cuja natureza, desenvolvimento e estado atual podem apresentar matizes diferentes.

[4] Esta é tão somente a primeira parte de um estudo mais amplo. As outras duas se intitulam: Redescobrir-se com fé: confiança e persistência e Recriar com amor: discernimento e audácia.

[5] A realidade é bastante plural, complexa e diversificada. Na Europa Ocidental e na América do Norte, há diminuição e envelhecimento em larga escala, bem como falta de vocações. No Leste Europeu, constata-se um ressurgimento vocacional. Na América Latina, o envelhecimento avança e as vocações também diminuem, mas em um ritmo bem menos acelerado. O que mais preocupa é o baixo índice de perseverança. Na África e na Ásia, as perspectivas são mais animadoras, já que o número de vocacionados(as) é razoável em proporção à quantidade de católicos existentes nos países (cf. BALDERRAÍN, Pedro. Vocaciones en el mundo: hablan las cifras. Vida Religiosa, Madrid, 93/6, p. 286-293, 2012).

[6] Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Paulus, 1997, p. 277-295.

[7] Clarividentes considerações a respeito do estado atual da VC e substanciosas pistas para sua reconfiguração frente aos apelos do mundo atual podem ser encontradas nos diversos artigos que compõem o volume resultante do Congresso Internacional da Vida Consagrada, realizado em Roma (Itália), de 23 a 27 de novembro de 2004: Paixão por Cristo, paixão pela humanidade. São Paulo: Paulinas, 2005.

[8] FRANCISCO. Evangelii gaudium: Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulinas, 2013.

[9] Para apreciar a originalidade da Imitação de Cristo, seu contexto e atualidade, nada melhor do que conhecer a recente publicação do Frater Henrique Cristiano José Matos, CMM: Imitação de Cristo: caminho de crescimento espiritual. Belo Horizonte: O Lutador, 2014.

[10] Este realismo prenhe de esperança permeia o Breve panorama da Vida Consagrada atual, apresentado pelo Irmão Afonso Murad (cf. Permanece conosco! Subsídios para a XXIII AGE. Estudo, reflexão e oração. Brasília: CRB, 2013, p. 53-64).

[11] “Talis est quis que, qualis eius dilectio est” (Io. Ep. tr. 2, 14).

[12] Cf. FOUCAULD, Charles de. Lettres et carnets. Paris: Du Seuil, 1996, p. 197.

[13] Uma sólida abordagem sobre a relação entre ideal e realidade, aplicada à formação presbiteral, pode ser vista em: VIANA, Wellistony Carvalho. Um longo e belo caminho… Um itinerário formativo para seminaristas. Brasília: CNBB, 2013, p. 17-43.

[14] CELAM. Documento de Aparecida. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Brasília: CNBB / São Paulo: Paulinas, Paulus, 2007.

[15] Sainte Louise de Marillac: écrits spirituels. Paris, 1983, p .

[16] Saint Vincent de Paul: correspondance, entretiens, documents. Paris: Lecofre/Gabalda, 1920-1925. 14 tomos [neste artigo, citamos o número do tomo em algarismos romanos, seguido do número da página correspondente à citação].

[17] Tal foi o brado que ecoou do íntimo de Tomás de Kempis (+1471): “Oh, quando virá aquela bendita e desejada hora em que me saciareis com vossa presença e sereis para mim tudo em todas as coisas! Enquanto isso não me for concedido, não terei alegria perfeita” (Imitação de Cristo 3,34,3).

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