ReliPress | RELIGIOUS LIFE PRESS
Dezembro 2015

Crer, lutar e esperar: horizonte teológico-espiritual da justiça, paz e integridade da Criação

Ir. Afonso Murad [1]

Apresentamos o “Credo pela justiça, o Bem Viver e a sociedade sustentável”, como texto inspirador da Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC). Visa suscitar reflexão e aprofundamento acerca de nossas convicções.

 (1) Cremos no Deus da justiça.

Para nós, consagrados da América Latina e Caribe, Deus se revela como o “amante da vida” em toda sua extensão (Sab 11,26). Seu amor gratuito e misericordioso supera a visão meramente jurídica e distributiva de justiça (Sl 103). Ele “faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,45 ). Cria a partir do nada e recria a partir do caos. Ele não dá a cada um/a o que merece, mas sim concede sua graça a todos, a começar de quem mais necessita. Faz justiça ao defender os oprimidos (Sl 103,6). Em continuidade com os profetas da Bíblia, escutamos os clamores de Deus na nossa realidade. Denunciamos as injustiças (Is 10,1-2), a manipulação da religião a serviço da opressão dos pobres e anunciamos a Boa Nova, que chama à conversão pessoal, comunitária e estrutural (Is 1,10-19). Sofremos incompreensão e por vezes somos perseguidos, inclusive no interior dos nossos Institutos e da Igreja. Cremos que o Reino de Deus, inaugurado por Jesus, estende suas raízes na história humana, até que Deus “seja tudo em todos”(1 Cor 15,8b).

(2) Cremos no Deus da paz.

Como seguidores(as) de Jesus, escutamos confiantes sua voz: “Eu lhes dou a minha paz” (Jo 14,27; 20,20 ). Compartilhamos o “Shalom”, que se traduz em harmonia, quietude, sintonia e empenho para criar relações justas e fraternas. Queremos viver a Bem-aventurança: “felizes o que promovem a paz, porque serão chamados Filhos de Deus” (Mt 5,9). Sabemos que o compromisso com a paz suscita conflitos, pois retira da zona de conforto pessoas, grupos e instituições. Aderimos à causa do “Bem Viver”, que implica construir uma sociedade fundamentada nos caminhos para a paz, em várias direções: para trás: com o nosso passado pessoal e coletivo; para frente: com as gerações futuras; para o alto: com Deus; para baixo: com o meio ambiente; para os lados: com nossas/os co-Irmãs/ãos e as/os leigas/os que atuam conosco; para dentro: consigo mesmo.

(3) Cremos em Deus, comunidade interdependente: Pai materno, Filho(a) e Espírito. Princípio da diversidade biológica e humana, Luz das luzes, Fonte das fontes (Sl 36,10). Proclamado(a) e reverenciado de várias formas e com tantos nomes em múltiplas tradições religiosas.

A biodiversidade se fundamenta teologicamente na Trindade, diversidade do Deus-Comunidade, que sendo muitos é um. Unidos a homens e mulheres de distintas crenças, como também aos não-crentes, defendemos tanto a biodiversidade quanto os direitos humanos provenientes das diferenças étnicas, culturais, religiosas, de gênero, de orientação sexual, de gerações. Se estas diferenças forem acolhidas em perspectiva de solidariedade, de colaboração recíproca, e superarem a estreiteza do corporativismo, a humanidade caminhará em direção à paz. Com o salmista louvamos: “como são numerosas tuas obras, Senhor. Com sabedoria fizestes todas elas. A Terra está cheia das tuas criaturas” (Sl 104,24).

O Deus da vida, diverso e uno, nos chama a promover a vida. O planeta Terra é a nossa “casa comum”. Aqui partilhamos da mesma morada, edificada pelo solo, o ar, a água e a energia. Com os sete bilhões de humanos, habitamos esta bela e frágil casa, onde convivem, em múltiplas teias, os microorganismos, as plantas e os outros animais. Nossa fé no Deus-comunidade nos leva e enfrentar um projeto de sociedade baseado na competição e no sucesso individual e a promover relações de cooperação; a incentivar o protagonismo das crianças, dos jovens, dos pobres e dos indígenas.

(4) Cremos que a humanidade e todos os seres foram criados na Palavra e pela Palavra (Gn 1;  Jo 1,1). Por isso, recebem de Deus: dignidade, sentido, meta, direção, inteligibilidade e impulso para a comunicação.

Na narração poética de Gênesis 1, se proclama que todos os seres passaram a existir a partir da livre vontade criadora de Deus. Assim se repete várias vezes: “e Deus disse” (v. 1,3,69,11). Enquanto a ciência formula hipóteses sobre como surgiu e se desenvolveu a matéria, dos seres abióticos até os seres vivos complexos, nossa fé reflete sobre por que e para que ela existe. A criação, sistema aberto de matéria e energia em evolução, ainda não terminou. Cremos que todo este movimento se origina em Deus e para ele se orienta. A natureza é palavra silenciosa de Deus, que nela manifesta sua beleza e esplendor (Sl 19,1-8).

A percepção sensorial está presente, em diferentes níveis e intensidade, em todos os outros seres vivos, sobretudo nos mamíferos. Estes últimos são “sencientes”, pois provam dor, medo e prazer. No nosso planeta, os humanos somos os únicos que “pensam e sabem que pensam”: seres de linguagem, de interpretação, de comunicação e de ação criativa. No entanto, as palavras e ações humanas podem ser direcionadas para o projeto salvador de Deus, a elevação das consciências em direção à cooperação e ao amor, ou se desviar para o “sem sentido”, a sedução enganosa do poder, a insanidade que conduz à aniquilação e à morte (Dt 30,17-18). Ter consciência implica responsabilidade e decisão. Por isso, renovamos nossa opção de “escolher a vida” (Dt 30,15).

A palavra humana, tantas vezes negada aos mais fragilizados da nossa sociedade, necessita ser difundida e aprofundada. Por isso, os/as religiosos/as estão comprometidos/as em processos de organização, de conscientização e de educação.

(5) Cremos que a Palavra se fez carne em Jesus de Nazaré (Jo 1,14).

Jesus percorreu campos, vilas e cidades. Inaugurou o Reino de Deus (Mc 1,15) e andou por toda a parte “fazendo o bem” (At 10,37). Acolheu os pobres e pecadores, curou, libertou homens e mulheres de males biológicos e psíquicos (Lc 4,18-21). Denunciou os equívocos da religião legalista (Mc 7,1-23) e colocou o ser humano necessitado em primeiro plano (Mc 2,23-28). Ao partilhar a mesa com os excluídos (Mc 2,15-17) Jesus mostrou que outro mundo é possível e necessário. Em Jesus, todo ser humano, independentemente de sua crença, encontra referências, valores, formas originais de conviver e atuar na sociedade como “nova criatura” (2 Cor 5,17).

A encarnação do Filho de Deus significou uma nova etapa evolutiva para a humanidade e para o cosmos. O divino assume e transforma não somente o humano, mas também a matéria mesma. Esta matéria finita, degradável, bela e limitada, criada radicalmente boa (Gn 1,31), mas contagiada pelo mistério do mal, começa a ser redimida. A criação geme e aguarda a sua libertação (Rm 8,19-20), para participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus (Rm 8,21). Jesus Cristo glorificado ama profundamente o mundo em que ele viveu.

(6) Cremos no Espírito Santo, princípio de relação, luz de Deus em nós.

Sopro primordial, força vital, alento, o Espírito cria laços, vínculos, teias, pois ele/a é relação e tece relações, entre todos os seres e entre os humanos. Em diferentes níveis, todas as criaturas, nas quais habita o Espírito de Deus, são imagens de Deus e devem ser respeitadas. O Espírito Santo cria, sustenta, renova (Sl 104, 30) e leva à consumação a criação.

Vento surpreendente e fogo abrasador, Ele/a impulsiona os seguidores de Jesus para criarem uma nova sociedade, onde cada um ouve na sua própria língua materna (At 2,8), é respeitado na sua peculiaridade, os jovens profetizam e os anciãos nutrem sonhos (At 2,17), partilha-se o alimento, cultiva-se a simplicidade e a alegria, e se saboreia a vida em comunidade (At 2,44.46).

Com distinta intensidade e modos diferentes, o Espírito de Deus está presente desde o princípio da criação (Gn 1,1), habita no ser humano que pratica o bem, e faz sua morada naquele/a que acolhe Jesus, e junto com seus irmãos e irmãs trilham o caminho do Seguimento.

(7) Cremos na unidade entre mística e libertação.

Na origem da fé judaico-cristã há um grito por libertação histórica. Moisés, criado na corte dos dominadores, rompe com sua ideologia quando “sai para ver seus irmãos e percebe a opressão a que eram submetidos” (Ex 2,11). Fica indignado com a violência praticada contra eles! No meio do trabalho de pastor e convivendo com a natureza, faz uma experiência mística que mudará sua vida.

Moisés encanta-se ao ver um arbusto que queima, mas não se consome (Ex 3,3). Neste fogo fascinante, energia que aquece e ilumina, manifesta-se o Deus que não se deixa manipular: Javé, aquele/a que simplesmente é, que está junto de seu povo. Divino, Outro, grande e próximo. Fascinante e tremendo (Ex 3,5-6). Então, a surpresa! Javé não é a projeção divina das forças da natureza. Ele/a não se confunde com o calor sol, o poder dos raios, a força das tempestades, os ciclos de vida e de morte das plantas e dos animais. Nem pede para ser cultuado nestes seres. Javé deixa-se tocar pelo sofrimento do povo escravizado no meio do grande império, ouve seus clamores, vê sua situação, conhece suas aflições (Ex 3,7). Deus não é impassível. Ele “desce” para libertar o povo que geme (Ex 2,23-25).

Jesus vive uma intensa intimidade com Deus, a quem chama carinhosamente de “Abba”, paizinho. Aí se revela o segredo de sua missão. Retira-se para orar muitas vezes (Lc 11,1). Prepara as decisões em oração. No momento mais difícil de sua existência, quando percebe a possibilidade de ser assassinado violentamente, se entrega totalmente a Deus (Mc 14,36). Ao mesmo tempo, Jesus é um homem ativo, que se dedica à missão de trazer a boa notícia do Reino de Deus, de libertar, de curar e promover o ser humano, a partir dos mais pobres (Mt 11,5). Prepara o grupo dos seus seguidores, levanta perguntas que fazem pensar. Testemunha liberdade e alteridade que fascinam homens e mulheres de tempos e lugares diversos.

Nosso engajamento social e ecológico se caracteriza por esta tensão positiva entre mística e libertação. Mergulhar em Deus, nutrir-se de sua Palavra, provar seu amor gratuito e fiel, colocar-se no seguimento de Jesus. E, simultaneamente, empenhar tempo, energia e processos, para mudar a sociedade e ter uma nova postura em relação ao meio ambiente.

A espiritualidade ecológica acentua a gratuidade, o silêncio, a sintonia com a dança do cosmos, a reconexão, a transparência de Deus na criação, a sabedoria que aprende da natureza. A espiritualidade libertadora, por sua vez, enfatiza o compromisso com a transformação social, a indignação e a mobilização em favor dos fracos e oprimidos, o pensar crítico, o profetismo. Uma eco-espiritualidade libertadora consegue articular estas dimensões distintas e complementares. E alcança maior profundidade e amplidão do mistério divino.

(8) Cremos no Deus do futuro, criador e libertador.

A promessa é uma novidade da fé judaico-cristã. A relação do ser humano com o Divino não consiste no “eterno retorno” a um passado idealizado, ou em uma série de ritos visando conquistar os favores dos deuses, mas sim no empenho pela construção do futuro. O Deus que louvamos e bendizemos em sua grandeza, está conosco, vai à nossa frente, abre caminhos inimagináveis. Embora seja tão diferente dos humanos, faz aliança, pacto de fidelidade e de reciprocidade: “Eu serei o seu Deus e vocês serão o meu povo” (Ex 6,7). Jesus ressuscitado, início da nova criação, promete que estará sempre conosco (Mt 28,20). Seu espírito nos conduzirá à verdade plena (Jo 16,13).

Quando o povo de Israel estava no exílio, sem terra e sem nação, explicitou a crença no Deus criador. O primeiro gesto libertador de Deus consiste em criar, separar, organizar e vencer o caos primitivo. Por isso, nos Salmos se louva ao mesmo tempo a Javé pela criação e pela libertação histórica. O Salmo 136, embalado no refrão: “porque eterno é seu amor”, louva a Deus pelo céu, o solo, as águas, os astros (v.3-9). E, logo a seguir, recorda com gratidão a libertação do Egito e a posse da terra (v.10-24). E por fim, dá graças a Deus, que sustenta a todo ser vivo (v.25). Já no Salmo 146 se pede para não colocar a confiança nos poderosos, pois eles são frágeis e passageiros, como todos os outros seres sujeitos ao ciclo da vida e da morte. Deve-se confiar em Javé, o criador, que mantém sua fidelidade e faz justiça aos oprimidos (v.5-7).

Se o mesmo Deus que liberta e faz aliança é o que cria, em movimento contínuo em direção à plenificação, então se descobre as conexões entre o mundo material, a evolução do cosmos, a história humana, a encarnação, a salvação em Cristo e a escatologia. Dependendo de Deus, o futuro não será a aniquilação, mas a consumação, a nova criação (2 Cor 5,18). A consciência social e ecológica nos pacifica e inquieta. Estimula-nos a lutar pela justiça, a promover a paz e uma sociedade ecologicamente sustentável.

(9) Cremos, esperamos e assumimos compromissos.

O livro do Apocalipse anuncia, de forma esperançosa, a vinda do “Novo Céu e Nova Terra” (Ap 21,5). Cremos que a salvação, libertação da maldade, da provisoriedade e da degradação em vários níveis, atingirá a todos os seres, que seremos transformados e recapitulados em Cristo, no Espírito. A luta pela justiça social, a promoção da paz e o cuidado com a Terra não são elementos opcionais ou secundários, mas sim componentes fundamentais do projeto salvífico de Deus, ao qual somos chamados a colaborar.

Somos filhos e filhas da Terra, irmãos e irmãs em um mundo dividido, violento e fragmentado. O ar, o solo, a água e a energia do sol, os microorganismos, as plantas e os animais não são somente “recursos naturais”, mas também nossos irmãos e irmãs. Compartilhamos de sua beleza e finitude. Deus nos confiou este planeta para administrar, gerir (Gn 1,15) e cuidar (Gn 2,15).

Não vemos que haja competição entre compromisso social e luta pela ecologia. Em casos de conflito entre ambos, defendemos em primeiro lugar a vida humana ameaçada, sobretudo a dos pobres e dos fracos. Vemos que os direitos humanos se expandem com os direitos da Terra, assegurados pelo Deus da Vida.

Compartilhamos este apelo com toda a Vida Religiosa Consagrada do nosso continente: escutemos os clamores dos pobres e respondamos ao grito da Terra!

 

[1] Irmão Marista. Doutor em Teologia (Universidade Gregoriana). MBA em gestão e tecnologias ambientais (Universidade de São Paulo). Professor de teologia. Membro da Equipe Interdisciplinar da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) e da Equipe de teólogos/as assessores/as da presidência da CLAR.

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