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Novembro 2016

Primeiro Domingo do Advento

O tempo da graça, o revestir-se de Cristo e a vigilância constante

Pe Andherson Franklin Lustosa de Souza

Com o período do Advento inicia-se para a Igreja um caminho de preparação para a celebração do Natal do Senhor. De fato, os domingos que se seguem devem ser considerados como um convite feito pela Palavra de Deus a uma verdadeira mudança de vida e conversão. A liturgia desse primeiro domingo do advento traz consigo um fio condutor que une todos os textos apresentados, isto é, um convite a se ter os olhos atentos aos sinais dos tempos. Neste caso, é possível perceber que nos textos lidos o tempo da graça, como manifestação de Deus, o convite a revestir-se de Cristo, como modo de vida e a vigilância constante são temas importantes a serem considerados.

Nos textos desse domingo, o tema do “tempo” aparece em expressões, bem particulares, nas leituras e também no evangelho. Na primeira leitura o profeta indica os “últimos tempos”, uma expressão que, no vocabulário profético, não indica o fim da história, mas o tempo do Messias, isto é, o tempo na história quando todas as dimensões da criação seriam atingidas pela manifestação do Messias e pelos desígnios de Deus  para o mundo. O profeta invoca a novidade desejada por Deus para o mundo inteiro, quando todos os povos viverão de forma pacífica, unidos à mãe de todas as cidades: a cidade de Jerusalém. Também o apóstolo Paulo, na carta aos Romanos, faz uma indicação temporal quando afirma: “o tempo em que estamos”, ou até mesmo “o dia vem chegando”. Em suas palavras, o apóstolo continua na perspectiva do profeta, já que indica o dia da graça, o dia da salvação, o dia dos filhos da luz. A expressão grega utilizada pelo apóstolo é Kairós, que significa um tempo favorável, um tempo oportuno, ou seja, o tempo da graça. Desse modo, Paulo exorta os irmãos a terem os olhos bem abertos e atentos aos sinais dos tempos, quer  dizer, não se deixarem corromper ou se perder nos caminhos da vida, desconsiderando a salvação e a graça. O evangelho também aponta para a questão do tempo quando traz palavras como: “o tempo de Noé” e a “hora” da vinda do Filho do homem. No trecho do evangelho de Mateus, retirado do seu discurso escatológico, o evangelista deseja dirigir o olhar do seu leitor para os sinais do tempo, não aqueles extraordinários, mas os presentes no dia a dia. Todos são convidados a discernir os sinais da vinda do Senhor nas situações da vida cotidiana, onde se está, na vida que se vive, no seu cotidiano, no intuito de não deixar passar o tempo da graça de Deus, como fizeram aqueles na época de Noé.

Outro aspecto importante presente na liturgia desse domingo é o convite feito pelo apóstolo Paulo aos romanos: revesti-vos do Senhor Jesus Cristo. Na contemplação do tempo e da forma como viviam os de sua época, o apóstolo convida-os a revestirem-se de Cristo, a acordarem do torpor do sono que obscurece a visão e redescobrir a fé como critério de leitura dos eventos da vida. Ao apresentar Cristo como critério para o tempo e a vida, o apóstolo não deseja fazer surgir um grupo de privilegiados, um grupo de separados ou eleitos, mas convida a todos a fazer da própria vida um momento de graça, a viver o tempo da salvação. Revestir-se de Cristo significa reencontrar o sentido profundo de pertença, próprio daqueles que foram mergulhados em Cristo pelo batismo, significa fazer da existência um sinal luminoso de Deus. Tal proposta também se encontra nas palavras do profeta Isaías, quando ele indica que no tempo favorável, todos aprenderiam os caminhos dos Senhor, ensinariam e cumpririam os seus preceitos. Segundo as palavras do profeta, aqueles que seguem o Senhor seriam capazes de olhar para além do horizonte e perceberem o novo que vem. Mesmo em meio às grandes dificuldades do tempo, às grandes dúvidas que assolam os corações dos homens e das grandes dificuldades de uma sociedade ainda marcada por tantos valores contrários à vida, aqueles que caminham na luz do Senhor mantêm viva a chama da esperança e da fé nas promessas de Deus. Ainda no evangelho, o convite a uma vida mergulhada em Deus, se faz ouvir, de fato, na descrição da vida cotidiana onde um será tirado e o outro será  deixado, é um convite a uma vida marcada por valores que não passam, uma vida em Cristo.

Outro ponto presente na liturgia, que seguirá como proposta para todo o tempo do Advento é a vigilância constante, ou seja, não deixar que o tempo da graça passe, mas viver em Cristo. Em todos os textos desse domingo, o aspecto da vigilância constante é fortemente sentido, pois desde a primeira leitura até o evangelho encontram-se  expressões que  indicam essa vigilância. Sendo assim, o profeta convida a todos a abrirem os olhos e olharem no horizonte o novo que vem vindo; já o apóstolo Paulo exorta os irmãos a acordarem do sono e, despertos, viverem como filhos da luz, e o evangelista, por sua vez, indica que se deve vigiar, pois não se sabe a hora que o Senhor virá. Em todas essas exortações é possível perceber um convite a um olhar mais profundo sobre a realidade, um olhar daqueles que são marcados pela esperança e pela confiança na vinda próxima do Senhor. Neste sentido, a vigilância é um aspecto fundamental da vivência da fé e essencial na vida dos discípulos e discípulas missionários, já que os faz atentos aos sinais dos tempos e pressurosos em viver na luz do Senhor. O cristão não deve deixar-se tomar pelo improviso, como apresenta o evangelho com a imagem do ladrão; deve viver de modo que a vida cotidiana seja tocada pela presença de Deus, pelos valores do evangelho, pela misericórdia e compaixão para com todos, por uma esperança renovada e por uma fé ativa. Desse modo, seu olhar, como de um vigia, estará sempre esperando a aurora com alegria e confiança, não somente como quem espera passivamente a manifestação do Senhor, mas como quem traz para a vida do dia a dia a luz que do Senhor recebeu.

Que o Advento seja propício e fecundo, a fim de que nesse tempo de grande graça todos se sintam convidados a se revestirem de Cristo, isto é, a viverem como seus discípulos missionários, por meio da vigilância constante, própria daqueles que sentem a urgência da manifestação do Reino de Deus.

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