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Dezembro 2016

Segundo Domingo do Advento

A liturgia desse segundo domingo do Advento apresenta alguns pontos importantes a serem refletidos: a esperança vigorosa, a fé comprometida e a conversão contínua

Pe Andherson Franklin Lustosa de Souza

O segundo domingo do Advento é marcado pela palavra de João Batista já no início do evangelho: “convertei-vos, porque o Reino de Deus está próximo”. O Advento é um tempo de conversão, isto é, apresenta uma proposta de ruptura com um modo de vida distante dos valores do Evangelho, do Reino e a proposta de se abrirem estradas novas no cotidiano da vida. Desse modo, o tempo de conversão é um “tempo” que muda o próprio tempo, ou seja, a possibilidade de deixar que todas as dimensões da vida sejam tocadas pelo amor, pela graça e pela ação de Deus. Sendo assim, a liturgia desse segundo domingo do Advento apresenta alguns pontos importantes a serem refletidos: a esperança vigorosa, a fé comprometida e a conversão contínua.

Num primeiro momento, com um olhar não muito atento, pode-se pensar que exista uma distância grande entre a palavra do profeta Isaías, da primeira leitura, e a dura fala do evangelista no texto do evangelho de Mateus. Por um lado, o profeta convida a olhar para a haste nova, o broto que nascerá do tronco de Jessé; o evangelista, por sua vez, grita forte contra a árvore seca que tem em sua raiz o machado pronto para cortá-la. A experiência a qual o profeta faz menção não é muito simples de ser apresentada, possivelmente, ele indica a libertação de Israel das mãos do rei Assírio que estava pronto para tomar de assalto a cidade santa. Juntamente com esse gesto libertador, o profeta vê a necessidade de um tempo novo para o povo eleito, não mais marcado pelos desmandos dos reis e seus caprichos, mas pela justiça que viria por meio das mãos do Messias. Sendo assim, a palavra de Mateus não parece estar tão distante da do profeta, já que indica um tempo de renovação e mudança, quando convida a todos à conversão de coração e de vida, apresentando o machado colocado à raiz da árvore seca. Neste caso, tanto o profeta, em sua imagem e palavras, quanto o evangelista, ambos convidam a uma esperança vigorosa, viva e pró-ativa.

A esperança humana muitas vezes está ancorada em resultados rápidos e claramente visíveis; na ausência desses, ela esmorece e se enfraquece e, por vezes, é derrotada diante das contradições da história pessoal e de toda a humanidade. Por isso, a liturgia desse domingo convida a todos a uma esperança vigorosa, fundamentada nas promessas de Deus que nunca passam. O profeta fala sobre o Messias que viria trazendo consigo o novo, por meio de suas palavras de justiça, da defesa dos pequenos e seus gestos de paz. Por sua vez, o evangelista afirma que o Messias virá e batizará a todos com o fogo, purificando os corações e acendendo neles o desejo de seguir os caminhos de Deus e de sua Palavra. Essas são palavras que devem provocar uma grande esperança, fazendo com que o tempo do Advento seja um tempo de uma preparação sincera na busca de acolher Cristo que pode fazer de cada um seu discípulo e discípula cheios de uma esperança vigorosa e renovada.

Visto que a esperança a que cada cristão é chamado não se traduz numa espera inerte de um futuro incerto, mas na responsabilidade daqueles que são vocacionados a ser discípulos de Cristo, a fé comprometida é também um elemento fundamental no caminho de seguimento. O profeta Isaías descreve os sinais dos tempos messiânicos, marcados por uma profunda renovação na direção do direito, da justiça e da vida plena para todos, onde toda a criação estaria em paz. No Evangelho, a força de João Batista está no fato de ele ser apresentado como um verdadeiro profeta e em suas palavras que escavam dentro do homem e da história provocando uma reflexão e chamando todos às suas responsabilidades. Desse modo, seja pela esperança apresentada pelo profeta, como pela mensagem direta de João Batista, a liturgia indica claramente a fé comprometida como necessária para todo o cristão. De fato, a fé não deve ser compreendida como uma consolação espiritual enganadora, fruto de uma religião somente professada e não vivida. Ao contrário, ela é um empenho real e sempre renovado na direção do caminho do discipulado e da produção de frutos verdadeiros, provenientes de uma sincera adesão a Cristo. Sendo assim, a fé que se espera de cada cristão é aquela que propõe uma constante conversão, que passa pelo compromisso com Deus, com a sua Palavra e com os irmãos e irmãs. Neste caso, a vida seria marcada por uma atitude de fé, isto é, uma fé que nasce do encontro com Cristo e do desejo de segui-lo, e é traduzida numa vivência comprometida com a promoção do Reino de Deus.

No evangelho, João Batista pede a conversão aos que já professavam a fé; suas palavras são direcionadas, em primeiro lugar, aos que se auto denominavam filhos de Abraão. De fato, na Sagrada Escritura, todos, judeus e pagãos, são participantes da promessa feita por Deus a Abraão, porém, o evangelista quer acentuar a postura daqueles que já se sentiam prontos e preparados, fundamentados numa experiência religiosa infértil como uma árvore seca e sem vida. Desse modo, as suas palavras correm o tempo e a história e chegam até hoje, convidando a todos ao mesmo processo de conversão. Em todo o evangelho de Mateus percebe-se a intenção de contrapor uma religiosidade puramente aparente e de propor a experiência de fé fundamentada no encontro pessoal com Cristo que convida ao discipulado. Neste caso, a conversão é apresentada como um processo contínuo, uma resposta ao projeto de salvação de Deus, por meio do seguimento e da permanência junto a Cristo, já que é aos pés do Mestre que o discípulo é sempre formado. Neste sentido, entende-se também a insistência de Mateus em relação à necessidade de produzir frutos, já que os mesmos seriam o testemunho da transformação operada por Deus, em Cristo, na vida de seus discípulos. Por isso, o homem é chamado a se tornar responsável, abrindo-se à ação do Espírito Santo na busca de uma sincera e contínua conversão, de modo que possam nascer brotos novos dos troncos secos de sua vida e da sociedade, e que luzes sejam espalhadas onde ainda estão presentes as trevas.

Que a liturgia desse segundo domingo do Advento seja um alerta a todos sobre a necessidade da busca constante da vivência de uma fé madura e comprometida, cheia de uma esperança própria daqueles que fazem uma sincera experiência de conversão contínua.

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