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Janeiro 2017

3º Domingo do Tempo Comum

Vem e segue-me - Estar com o Senhor - A missão dos discípulos missionários

A liturgia deste terceiro domingo do tempo comum traz à tona o chamado feito por Jesus aos seus primeiros discípulos. Ao dirigir-se a eles, o Senhor não só os convida ao seguimento: “vem e segue-me”, mas também apresenta a sua missão: “farei de vós pescadores de homens”. Contudo, tal proposta missionária não surge somente pelo fato da aceitação do chamado, mas é reflexo de um ponto fundamental que se encontra na leitura da Primeira Carta aos Coríntios. Ao questionar a comunidade por suas divisões internas, Paulo afirma que todos são de Cristo, isto é, devem unir-se a ele, estar no Senhor, viver com ele, como condição fundamental para se tornarem discípulos.

O texto do evangelho proposto pela liturgia apresenta o encontro de Jesus com os seus discípulos, o seu chamado e a missão a eles propostas. Este primeiro encontro se dá na região da Galileia, local que marca o início do ministério de Jesus. A escolha deste território é uma resposta à palavra do profeta Isaías, que anuncia a manifestação da graça de Deus entre as cidades deste espaço marcadamente pagão. A libertação que o profeta anuncia, o evangelista Mateus vê realizar-se através do ministério de Jesus, que se torna Luz para a “Galileia das nações”, para o “o povo que jazia nas trevas”.

Em sua manifestação, Jesus revela a força do seu chamado e indica características próprias do modo de seguimento que ele propõe. Entre os judeus, os discípulos se formavam em contato direto e contínuo com o mestre, aceitando a palavra e os seus ensinamentos, algo também visto no caminho de formação dos discípulos cristãos. Apesar da proximidade existente entre o discipulado cristão e o judaico, alguns pontos os diferenciam radicalmente. No judaísmo, o discípulo escolhia o seu mestre e deixava tudo para segui-lo; já no caso do discipulado iniciado com Cristo, a iniciativa é sempre sua, ou seja, ele escolhe quem quer para os formar na escola do discipulado. Ainda outra diferença crucial é a que no caso judaico, os discípulos poderiam e desejavam se tornar, por sua vez, mestres; algo que no caso dos discípulos de Cristo era diverso, já que o discípulo se faz no contínuo contato com o Mestre, e não separado dele. Por fim, a sorte e a escolha de vida do discípulo no judaísmo poderia ser diversa da do seu mestre e, no caso cristão, o discípulo se une de tal forma ao Mestre, que o seu caminho se torna o caminho trilhado por Ele. A sorte do Mestre será a mesma do discípulo: beber o cálice que ele bebeu. O chamado de Jesus é tão direto e firme que faz com que os homens abandonem as redes imediatamente, ou seja, sem arrastá-las para a praia (v.20), ou, no segundo momento, sem lançá-las ao mar (v.22). O advérbio “imediatamente” aplicado à ação, por parte dos chamados, é uma indicação clara da urgência em responder ao apelo que lhes foi feito. Desse modo, a liturgia deste domingo propõe a todos a escuta da voz do Mestre, a fim de que, a exemplo dos primeiros discípulos, todos desejem estar com o Senhor.

Como foi apresentado, o discípulo missionário é formado aos pés do Mestre e no convívio estreito com aquele que o chamou para o seguimento. Sendo assim, é condição fundamental para que o mesmo seja formado que ele esteja com o Senhor, isto é, unir-se a ele numa relação de intimidade e comunhão. Na segunda leitura, o apóstolo Paulo faz uma dura exortação à comunidade dos Coríntios, que se encontrava marcada por sérias divisões internas. Ao questionar a postura da comunidade, ele apresenta o ponto fundamental da fé cristã, que é a morte e ressurreição de Cristo para a salvação de todos. Paulo exorta os irmãos a reconhecerem que estarem unidos a Cristo é o que de fato importa, aos que desejam seguir o Senhor no caminho do discipulado. Tal união é condição para que esses superem as dificuldades do caminho proposto no seguimento do Senhor e sejam capazes de realizarem a sua missão como cristãos.

Diante da cruz de Cristo, todos são iguais e todos se tornam irmãos, não deve existir diferença e separação, discórdia ou desunião entre aqueles que a ela abraçam como sinal de salvação. Com tal afirmação o apóstolo Paulo aponta aos irmãos um rumo a ser seguido e uma meta a ser alcançada, ou seja, estar com Cristo como condição fundamental para que os discípulos sejam formados, algo que é necessário também para que a comunidade amadureça por meio da Palavra de Deus, da Eucaristia, da comunhão Fraterna e das Orações, numa verdadeira comunidade de discípulos missionários. De fato, como afirma o apóstolo na Segunda Carta aos Coríntios: “aquele que está em Cristo é nova criatura”, isto é, torna-se lugar da manifestação da graça de Deus, capaz de fazer surgir a novidade do evangelho no mundo. Por isso, a liturgia desse domingo convida a todos os cristãos a fazer o mesmo caminho proposto pelo apóstolo na segunda leitura e confirmado pelo Senhor em seu chamado direto aos seus discípulos: estar com o Senhor como condição necessária, a fim de que todos sejam formados como verdadeiros discípulos missionários, capazes de dar razão à sua fé e viver a sua missão com o vigor próprio dos profetas.

Tendo chamado os seus discípulos a estarem com ele, o próprio Senhor também indica a sua missão: “vos farei pescadores de homens”. Esta é uma expressão de ligação que une os chamados a Cristo e à sua própria missão, já que todos são convidados a estar com o Mestre e unirem-se a Ele por sua palavra e ensinamento na missão de fazer novos discípulos. O convite que os primeiros discípulos receberam de abandonar as redes de pesca e se tornarem pescadores de homens os atinge no momento em que eles estavam pescando (v.18) e preparando as redes para a pesca (v.21). Todavia, o texto do evangelho propõe que Jesus passava pela Galileia anunciando a Boa Nova do Reino; tal indicação é crucial para entender a força do chamado e como ele foi aceito pelos discípulos. De fato, é possível intuir que os mesmos já tinham ouvido a pregação do Senhor e, por meio dela, já tinham sido eles mesmos “pescados” para o Reino. Tais elementos destacam que o chamado atinge cada um no lugar onde se encontra: na comunidade em que estamos e no correr dos dias, todas as vezes que se acolhe a Palavra e por ela se deixa tocar e conduzir. Sendo assim, o convite que o Senhor dirigiu aos pescadores do evangelho é dirigido à Igreja hoje, a cada fiel, a fim de que toda a Igreja se torne pescadora de homens e mulheres para o Reino. Deste modo, a resposta ao chamado deve ser pessoal, mas nunca desligada da comunidade na qual se professa a fé e se caminha com a Palavra. O Senhor lança a rede e convida ao seguimento aqueles que se tornarão seus primeiros discípulos, indicando-lhes a sua missão: “vos farei pescadores de homens”. Juntamente com eles todos são convidados a “abandonar as suas redes” e tomar as “novas redes” da Palavra, da acolhida, do serviço, da profecia, da misericórdia, para com Ele aprender a pescar homens e mulheres para o Reino.

Na primeira leitura e no evangelho o texto do profeta Isaías é proposto: “O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz, e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz”.

A sociedade vive num momento de grande crise e violência, na qual a vida humana parece poder ser descartada sem que isso fira os olhos, o coração e a dignidade de todos. O cristão, chamado pela fé a ser discípulo de Cristo, não comunga com essa barbárie e descaso com a vida de irmãos e irmãs, mas se indigna e levanta a sua voz.

Que a liturgia deste domingo toque os corações de modo que cada um perceba o chamado que recebeu de se tornar essa luz brilhante de Cristo hoje, em meio a muitas trevas. Que os valores do evangelho trazidos no coração, na vida, nas atitudes e nas palavras dos cristãos de hoje se tornem luzes cheias de brilho e vida. Que Deus, por sua graça, faça surgir novos profetas que não comunguem com as trevas, mas sejam comprometidos com a luz e a vida, principalmente dos que mais precisam. Desse modo, os discípulos formados aos pés do Mestre serão vigorosos pescadores de homens e mulheres pelo testemunho, pela palavra e pela vivência do evangelho.

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