ReliPress | RELIGIOUS LIFE PRESS
Fevereiro 2017

Comprometidos com a vida

5º Domingo do Tempo Comum

Pe Andherson Franklin Lustosa de Souza

A liturgia da Palavra deste domingo dá prosseguimento ao discurso do domingo passado, quando apresentava as bem-aventuranças. Com a imagem do sal e da luz, o evangelista apresenta uma religião que vai além das boas intenções, mas é professada com compromisso com a defesa da vida, segundo o que aponta o texto do profeta Isaías, na primeira leitura. Desse modo, a proposta da liturgia se volta para o que é central na fé cristã: a vivência transparente do seguimento de Jesus, que marca a vida do cristão.

Na passagem do evangelho de Mateus, proclamada neste domingo, a afirmação de Jesus sobre o sal e a luz é diretamente dirigida à comunidade: “vós sois o sal da terra (…) vós sois a luz do mundo”. A utilização do pronome na segunda pessoa do plural é uma indicação clara de que não só os indivíduos, os cristãos devem ser sal e luz, mas toda a comunidade eclesial é chamada a testemunhar os valores do evangelho e ser um sinal do Reino.

O sal na antiguidade era considerado portador de uma força vital, devido ao fato de ser capaz de conservar os alimentos e ser utilizado como elemento de purificação. Ao utilizar a imagem do sal para apresentar à comunidade a sua vocação como lugar dos discípulos missionários, Mateus indica a força vital da mesma no mundo, como portadora da vida divina. Todavia, a força da imagem deve ser entendida, a fim de que o seu significado seja vivido plenamente pela comunidade eclesial. Sendo assim, quando o evangelista alude ao fato de que se o sal ao perder seu sabor de nada vale, ele oferece uma indicação sobre a imagem muito importante. Torna-se insípido aquele que não carrega em si o sabor e a força do evangelho, que não vive as bem-aventuranças, que não leva por onde vai o sabor de Cristo. Quando se volta para a imagem do sal, encontra-se também outros elementos muito importantes que indicam a forma como o mesmo é utilizado, isto é, não pode faltar na comida, não deve ser em excesso e se perde no meio do alimento. Tais aspectos unidos ao fato de que o sal não deve perder o seu sabor são essenciais na compreensão e vivência do que o evangelista propõe para a comunidade cristã. Em primeiro lugar, os cristãos, chamados a ser discípulos de Cristo, se desejam encontrar o seu lugar e papel no mundo não podem perder o que lhes é essencial: a sabedoria do evangelho, o sabor da novidade, que é Cristo. Em segundo lugar, os cristãos devem estar espalhados por todos os lugares, misturarem-se em meio aos muitos ambientes, a fim de que possam levar consigo o sabor do evangelho. Desse modo, onde estiver um discípulo de Cristo, lá deve chegar o sabor novo do evangelho, seja pelas palavras, atitudes, compromisso e modo de vida.

A outra imagem importante do evangelho é a da luz que evoca a vida e o novo nascimento. Não é por acaso que quando alguém nasce, logo ouve-se dizer: “veio à luz”. Em toda a Sagrada Escritura o próprio Deus é definido como sendo a Luz de seu povo, de modo particular, guiando e garantindo a força vital aos seus eleitos. Sendo assim, o evangelista Mateus, ao utilizar a imagem da luz, não convoca a comunidade à ostentação das boas obras para que sejam vistas e reconhecidas, mas indica que ela deve refletir o Reino, sendo ela mesma iluminada pela Luz de Cristo. Neste caso, a cidade construída sobre o monte, iluminada à vista de todos, é uma referência clara ao Reino de Deus, que cresce em meio aos homens, como uma semente plantada na terra. Os cristãos são chamados a ser luzes no mundo, pois, quando cada homem adere a Cristo, tornando-se seu discípulo, a luz do Ressuscitado brilha em sua vida, a fim de que, por meio da graça de Deus, ele seja capaz de iluminar o mundo, pela vivência dos valores do evangelho, pela prática da justiça e pelo compromisso com a vida. Assim, também a Igreja se torna essa cidade iluminada sobre o monte, quando em seu corpo estão discípulos e discípulas missionários, marcados pelo sabor e pela luz de Cristo, espalhados pelo mundo como o sal e a luz.

O texto do profeta Isaías, no capítulo 58, tem início com um diálogo entre Deus e o profeta, no qual o próprio Senhor pede ao seu servo que se dirija ao seu povo. Os filhos de Israel diziam que dirigiam a Deus suas orações e clamores, mas, por vezes, não se sentiam atendidos e nem viam acolhidos o seu jejum e os seus sacrifícios. Nesse momento, irrompe a voz do Senhor indicando a todo Israel o itinerário de fé e de vida, segundo o qual todo o povo devia caminhar. O desejo de Deus era o de garantir ao povo a maturidade da fé, condições de que vivessem segundo seus desígnios e que fossem capazes de realizar as suas obras de misericórdia. O Senhor lhes revela o que é central na vida daqueles que o desejam agradá-lo e servi-lo. Ele coloca no centro da vida de fé: os pobres e perseguidos, os presos e humilhados, os famintos e marginalizados, enfim, todos os que mais precisam e sofrem, como sendo os destinatários de seu cuidado de Pai. Esta palavra firme e direta, somada à exortação de Jesus no evangelho deste domingo, deve chegar ao coração de todos os fiéis na celebração da liturgia. De fato, tal compromisso com a vida de todos deve estar na ordem do dia da vida daqueles que são chamados ao discipulado, já que o próprio Jesus afirmou diante dos que o seguiam: “Eu vim para que todos tenham vida”.

Num momento em que o país está sendo assolado por tamanha violência e barbárie, mais do que nunca precisam-se de homens e mulheres cristãos, homens e mulheres que escutem a voz de Deus. As mesmas palavras, um dia dirigidas por Deus a Israel, são hoje dirigidas a todos os homens e mulheres: “se prestares todo o socorro ao oprimido, nascerá nas trevas a tua luz”.

Que o bom sabor de Cristo, presente na vida dos seus discípulos hoje, traga para a sociedade os valores do evangelho e seus sabores de vida, solidariedade, misericórdia, compaixão e paz. Que brilhem as luzes da vida dos discípulos de Cristo espalhadas por todos os lugares, a fim de que sejam dissipadas as trevas do descaso e do descuido com a vida. E, principalmente, que a vida nova dos que foram marcados pelo encontro com a Palavra de Deus seja a força transformadora da sociedade, em vista da construção do Reino de Deus.

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