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Julho 2017

O olhar de Comblin sobre a Vida Religiosa Consagrada

Alzirinha Souza

Para mim, falar do teólogo belgo-brasileiro José Comblin (1923 – 2011) é sempre um grande prazer. Não somente por ser ele o autor principal de minha tese doutoral (a primeira em nível de doutorado realizada sobre seu pensamento na UCL de Louvain, o que por si só seria suficiente), mas também por um dos fatores que mais me encantam em Comblin, que é a atualidade de seu pensamento, bem como seu senso de percepção da realidade.

Talvez as gerações mais novas que estão na Vida Religiosa Consagrada não o conheçam ainda. O teólogo José Comblin chegou ao Brasil em 1957 como padre Fidei Donum, esperando participar de uma Igreja viva que nascia na América Latina. Engajou-se efetivamente no contexto latino-americano de tal forma que jamais desejou voltar para sua terra natal, a Bélgica, a não ser para visitar sua família, oriunda de Bruxelas, e participante ativa da Paróquia da Santíssima Trindade, no bairro de Ixelles, onde cresceu.

Inseriu-se na realidade brasileira, inicialmente acadêmica, exercendo a docência em Bíblia em São Paulo, Campinas, e no Chile. Depois de chegar ao Recife em 1965 para compor a equipe de D. Helder Câmara, somou-se à docência exercida nestes anos na fundação do ITER (Instituto de Teologia do Recife), a experiência pastoral que iniciara como assessor de um grupo de operários em Campinas, dedicando-se às Comunidades de Base e à formação dos leigos e leigos missionários no Nordeste brasileiro. Uma característica marcante, entre tantas outras, era a facilidade que tinha em traduzir elementos complexos da teologia para um público muito simples, fazendo ao mesmo tempo uma reflexão a partir de suas realidades. Se tomarmos o método Ver-Julgar-Agir, diria que Comblin era especialista em “Ver” as situações do mundo, perscrutando a realidade com um olhar crítico e buscando ver mais à frente.

Por isso escrevia com propriedade sobre o que vivia, e vivia as alegrias e as tristezas do povo pobre do agreste brasileiro, que veio a ser com o passar dos anos o rosto do destinatário de sua reflexão. Sua obra é densa e ampla. Sua reflexão, aguçada em examinar e conhecer com detalhes as realidades às quais se referia, levava-o não poucas vezes a antecipar as transformações do futuro.

Para alguns, Comblin poderia ser um eterno insatisfeito e eventualmente duro em suas posições, o que era agravado por sua postura tímida, assertiva, própria de um legítimo belga: crítica e por vezes irônica. E ainda bem que assim o foi. A liberdade que possuía de ser um padre incardinado na Arquidiocese de Mallines-Bruxelas, de onde nunca se desligou, permitia-lhe falar livremente sobre temas proibidos aos demais devido à condição política e eclesial dos anos sessenta a oitenta. Exercitava sua profecia proferindo a palavra parriasta, verdadeira, nos momentos em que lhe era necessário pronunciá-la.

Como afirmam seus companheiros de caminho e de teologia, sua postura profética levava-o a denunciar as incoerências eclesiais sem jamais pensar em deixar a Igreja. Antes o fazia porque a amava e queria vê-la refletindo atitudes concretas de discípulos e discípulas de Jesus. Criticava os sistemas políticos e econômicos de nosso tempo porque estes, algumas vezes associados, a seu ver, à própria Igreja, contradiziam o mais profundo do Evangelho ao arrastar a pobreza e tirar a dignidade humana de um grande número de pessoas. Em coerência com sua fé e com sua compreensão de teologia como serviço, dedicou sua vida à formação dos pobres, especialmente dos leigos, como caminho e processo de libertação a partir do Evangelho de Jesus.

Por essa razão, aliada à consistência de sua teologia, sua opinião era frequentemente requisitada, o que faz com que o conjunto de sua obra se caracterize também por sua densidade e amplidão. Neste texto, especificamente, foi-me solicitado um estudo sobre o pensamento de Comblin acerca da Vida Religiosa Consagrada. Respeitando a linha editorial da Revista, tomei por metodologia apresentar alguns elementos-chave de Comblin para o tema a partir de artigos anteriores e diretamente relacionados com ele que o próprio autor publicara aqui, concernentes ao período de 1992 a 2007. Estes seis artigos escolhidos revelam os pontos centrais constituintes e as inquietações de Comblin sobre a Vida Religiosa Consagrada, nos quais procuro incluir alguns pontos a partir de minha experiência de docente no ITESP-SP, que me permite conviver com alunos/as, em sua maioria religiosos/as.

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