ReliPress | RELIGIOUS LIFE PRESS
Enero 2018

Seminário Brasil-Colômbia debate Compreensão como Método

O processo de paz na Colômbia, refugiados, poder, política, dança e religião. Estes são alguns dos temas em debate durante o 3º Seminário Brasil-Colômbia de Estudos e Práticas de Compreensão. Promovido pela Fundação Cásper Líbero, o evento, que acontece nos dias 4 a 8 de dezembro em São Paulo, é coordenado pelo prof. Dr. Dimas Künsch, coordenador do grupo de pesquisa “A Compreensão como Método”, em parceria com a Universidade de Antioquia, na cidade de Medellín, Colômbia. Em entrevista, Künsch avalia os três anos do projeto e destaca sua importância para o universo acadêmico.

O que significa celebrar três anos do projeto “A Compreensão como Método”?

 Künsch – Este projeto do qual sou coordenador foi organizado pelo Mestrado em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero junto com os colegas da Universidade de Antioquia, uma universidade bem grande e com mais de duzentos anos de existência. Temos um convênio acadêmico com essa instituição do qual faz parte este projeto de pesquisa, que tem durabilidade de três anos (de 2015 a 2017) e que, portanto, está sendo concluído esta semana, com o 3º Seminário Brasil-Colômbia. Para o próximo ano, abriremos um novo projeto de pesquisa com duração de três anos em parceria com a mesma universidade, porém com outro nome. O tema, no entanto, será o da compreensão como método. Estamos celebrando esses três anos de trabalho, embora tenha me ocupado com esse tema há vinte anos durante meu mestrado, doutorado e nos anos posteriores.

 Qual é a relevância desse projeto para o mundo acadêmico e para a conjuntura atual? Por que Seminário Brasil-Colômbia e por que a Universidade de Antioquia?

 Künsch – O tema da Compreensão tem vários significados. No mundo acadêmico, nos esforçamos para criar formas novas de convivência e de diálogo entre autores e teorias, para que tenhamos uma posição mais compreensiva em relação ao conhecimento, não tanto buscando verdades, certezas, mas buscando caminhos, que é o que mais precisamos fazer. E, na busca de caminhos, nós nos colocamos junto aos outros e não contra os outros.

No campo acadêmico, o método da compreensão tem o significado de criar atitudes dialógicas, em que as pessoas e as teorias saibam conversar umas com as outras. Não temos respostas, não temos certezas, não temos verdades, e nossas verdades são pequenas. O que temos é aquilo que os gregos lá atrás chamavam de filosofia, busca pelo saber, amizade pelo saber, e o que os outros autores chamavam de ignorância sábia. Sócrates, por exemplo, afirmou “eu sei que nada sei”. Nicolau de Cusa, um santo cristão católico também no final da Idade Média e que foi bispo alemão no norte da Itália, falava da douta ignorância. Isto quer dizer que precisamos ter mais humildade no campo da produção de conhecimento e muito mais vontade de procurar. A compreensão, que é uma palavra em latim, no original ‘compreender’, significa juntar, integrar. Nós gostamos da palavra abraçar.

Como o senhor associa intersubjetividade e compreensão?

 Künsch – No campo da intersubjetividade das relações ou dos vínculos entre as pessoas, a compreensão pode significar, além do respeito, a inclusão de quem está excluído, e vocês têm uma revista que trabalha com excluídos. A compreensão chama para o abraço, ou seja, para transformar pessoas excluídas em pessoas incluídas, pessoas invisíveis em pessoas visíveis. Repito: a compreensão não é fácil, mas exige uma ética, um comportamento, uma busca, um trabalho, uma luta às vezes difícil para fazer das pessoas sujeitos, cada uma com sua história, com sua cultura, com sua maneira de se relacionar com o Transcendente, com suas dúvidas, com suas angústias, com suas dores. A compreensão pede também que entendamos até aquilo que não é compreensível, aquilo que faz parte da nossa história, da nossa vida e que não é um lado bom, é um lado às vezes da violência, do desamor, da falta de comunicação. A compreensão leva em conta um dos princípios cristãos, que é amor ao inimigo, uma das coisas mais difíceis. Compreender significa abraçar, entender o outro e nós mesmos lá onde somos limitados, falhos. Nós somos violentos, incapazes. Somos seres humanos, e a compreensão pede que se entenda a própria incompreensão e que saibamos conversar inclusive com nossas sombras, com nossos erros, com nossos limites.

Por que incluir neste seminário sobre a Compreensão como Método a Revista Esperança das Irmãs Scalabrinianas? Qual é a importância de trazer o tema do refugiado para o meio acadêmico?

 Künsch – Convidar uma pessoa como a Rosinha para participar de um evento e apresentar um trabalho é muito importante, porque é nossa maneira de colocar nossa voz no mundo no campo da comunicação. O campo da comunicação é bastante incompreensivo em relação aos autores brasileiros, latino-americanos, africanos e até mesmo em relação a asiáticos. Parece que só o chamado primeiro mundo entende o que é comunicação. É muito importante que abracemos mais pessoas, mais vozes, para compreendermos a própria comunicação. Agradeço por ter respondido ao convite. Muita força no trabalho com crianças, com migrantes, que é um trabalho compreensivo no sentido dos vínculos humanos e que é muito difícil no sentido da intersubjetividade. Uma das coisas que trabalhamos no campo da compreensão é o que chamamos de aposta. E Pascal, um pensador cristão, falava da fé em Deus para o qual ele não via prova, mas chamava as pessoas a apostarem no sentido de que é melhor apostar do que não apostar. E nós apostamos, às vezes mais, outras menos, e isso faz parte da nossa comédia e tragédia humana.

Como se dá esse convênio acadêmico com a Universidade de Antioquia?

 Künsch – Em relação ao convênio acadêmico com essa universidade, nós privilegiamos o lado do nosso trabalho. É mais um trabalho acadêmico, então, nós estamos buscamos compreender a compreensão, seu ponto de vista teórico. Lançamos livros, escrevemos artigos, fizemos revistas, participamos de eventos buscando compreender a compreensão. Nós também não temos uma resposta. Se soubéssemos o que a compreensão é, talvez já não teríamos motivo algum para buscá-la. Teríamos, creio, matado a compreensão. Ninguém pode se dizer um entendedor da compreensão, antes um buscador. Na Colômbia, trabalhamos mais no campo acadêmico. Não tinha como não abrir os olhos para um país-irmão, latino-americano, para essa nossa América Latina esquecida, invisibilizada, assim como a África. Não tinha como não olharmos para um país que teve uma guerra interna. Não é o caso de ver somente as FARC, mas também os latifundiários e os tantos personagens de uma guerra que nunca tem um lado só. Tantos morreram ali, mais de 300 mil pessoas.

A Colômbia tem um número incrivelmente grande de deslocados internos, e estamos olhando para esse processo e apostando. É difícil, porque o movimento guerrilheiro quer se tornar um partido político no momento em que a política, o regime de representação política, está em crise no mundo inteiro. Queremos, na Colômbia, discutir, conversar, porque não há caminhos que garantam uma certeza, mas é preciso compreender este momento e incluí-lo em nossas preocupações. Torcemos não pela vitória das elites, daquelas forças que são violentas, mas pela vitória do povo colombiano, da nação colombiana, um país tão vizinho, tão lindo, tão distante às vezes de nós devido ao nosso esforço de compreensão. Abraçamos muito a Europa, mas muito pouco os povos do chamado “sul”. A ética da compreensão cobra de nós que incluamos também em nossos olhares, em nossas viagens, em nossos interesses e contatos países excluídos e nossa torcida é grande para que a paz na Colômbia dê certo.

Revista Esperança

Publicação semestral da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo (Scalabrinianas) - BR

continúa
Síguenos en..